Jesus, arqueologicamente invisível

Por Reinaldo José Lopes

Atendendo a pedidos do pessoal que assiste ao canal do blog no YouTube e tentando dissipar as eternas dúvidas sobre o tema, começo uma minissérie de vídeos de Semana Santa sobre as dúvidas a respeito da existência histórica de Jesus. Afinal, há alguma base por trás da tese que afirma que Jesus Cristo foi apenas um mito inventado pelos primeiros cristãos? Confira o vídeo!

Você pode ler muito mais a respeito no meu livro “Deus: Como Ele Nasceu”, que custa apenas R$ 9,90 na versão eletrônica.

Neste episódio, falo de três temas: 1)a invisibilidade arqueológica de Jesus; 2)a razão pela qual os aspectos míticos que o circundam não são motivo suficiente para dizer que ele não existiu; 3)por que eu acho que todo mundo, tanto religiosos quanto ateus, têm problemas de objetividade para abordar o tema.

Este post antigo do blog reúne todos os textos que eu tinha publicado sobre o tema por aqui até então, caso você se interesse em dar uma olhada.

Como bônus, para quem não é grande fã de vídeo, coloco abaixo um trechão de um dos capítulos do meu livro, explicando mais ou menos as mesmas coisas que abordei no YouTube.

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Eu disse que é verdade que não há evidências arqueológicas da existência de Jesus, não é? Pois é, disse, mas tal fato indiscutível é, no fundo, irrelevante. Se os historiadores atuais decidissem fazer uma espécie de censo do Império Romano, colocando na “relação de moradores” oficial da região apenas os sujeitos que deixaram um testemunho físico direto de sua existência, os domínios de Roma pareceriam mais despovoados que o Saara.

E isso vale para a Antiguidade como um todo. A situação no auge do Império Romano talvez seja um pouco melhor porque, além da elite política e econômica, a qual, em qualquer época, tem mais probabilidade de deixar traços diretos de sua passagem pela terra, havia uma considerável “classe média” urbana – pequenos comerciantes prósperos, artesãos relativamente abastados, escravos libertos (no Brasil colonial a gente diria “alforriados”) que viravam administradores dos bens de seus ex-senhores etc. Esse povo todo, querendo registrar de algum modo sua ascensão social, muitas vezes deixava pequenos monumentos retratando sua vida, em geral nas sepulturas – pequenas esculturas retratando seu cotidiano no açougue/curtume/olaria, homenagens a um filho ou a uma esposa querida que morreu cedo mais etc.

Tais artefatos muitas vezes tinham nome e sobrenome dos defuntos, permitindo que, de fato, a gente possa dizer “isto aqui é evidência arqueológica de que Fulanus de Talis existiu”.

Beleza, mas esse não parece ter sido o caso da maioria esmagadora das pessoas que viviam sob o domínio de Roma, basicamente uma massa de camponeses que correspondia a algo entre 90% e 95% da população. Esse povo todo não sabia escrever, raramente tinha acesso à escrita por meio de escribas (custava caro) e tampouco contava com o dinheiro necessário para construir um monumento funerário, ao contrário do ex-escravo cheio da grana dono da Casa de Carnes Coliseu lá na capital imperial. (O Coliseu foi construído depois da morte de Jesus, mas é só para efeito ilustrativo, certo?)

Ocorre que Jesus era um desses sujeitos aparentemente destinados ao eterno anonimato, um membro dos “90% que sobram”. Não há motivos para duvidar que ele tenha crescido em Nazaré, um vilarejo de 200 almas na zona rural da Galileia, tão insignificante que nem chega a ser mencionado no Antigo Testamento ou em outros textos judaicos não cristãos. Por mais que ele tenha atraído multidões de seguidores ocasionalmente (e isso pode ser apenas um exagero desculpável da parte dos evangelistas), o núcleo de seus companheiros muito provavelmente era formado por camponeses iletrados como ele (segundo a tradição, vários desses discípulos, como Pedro, Tiago e João, eram pescadores). O próprio Jesus era uma espécie de pau para toda obra: o termo grego dos Evangelhos que normalmente traduzimos como “carpinteiro” engloba, na verdade, também as funções de pedreiro – “construtor” talvez fosse um equivalente mais preciso.

Gente dessa extração social na Judeia do século 1º d.C. simplesmente não deixava muita coisa de herança, e certamente nada que não fosse de tecido, palha ou madeira – portanto, perecível em poucos anos. Também é bastante difícil imaginar que os discípulos e a família de Cristo teriam tido dinheiro suficiente para comprar um túmulo na rocha e um ossuário (espécie de caixão feito de pedra onde se depositavam os ossos do defunto depois que o corpo se decompunha), conforme um documentário sensacionalista afirmou alguns anos atrás, com a suposta descoberta da “tumba de Jesus”. Deixando de lado por um momento a crença ferrenha dos seguidores do Nazareno em sua ressurreição (tema complicadíssimo ao qual precisamos voltar com cuidado depois), é historicamente improvável até imaginar que Cristo recebeu um enterro digno, porque essa não era a praxe quando o morto era um condenado à crucifixão. (Nesses casos, o mais comum era deixar o corpo na cruz por um tempo, às vezes exposto a aves carniceiras e a cães, e depois jogar o que sobrava numa vala comum.)

Resumo da ópera: não é por falta de evidências arqueológicas diretas que se deve negar a existência de um personagem da Antiguidade. A mesma falta de evidências vale para inúmeras outras figuras importantes do mundo antigo, e ninguém usa isso como argumento para dizer que elas não passam de mitos. OK, temos moedas nas quais estão estampadas as fuças dos Césares ou de Alexandre, o Grande, mas ninguém nunca achou o capacete ou a lança de Leônidas, o rei de Esparta que morreu enfrentando os persas em 480 a.C. Sua existência é inferida a partir de um punhado de textos antigos, tal como a de Jesus – e o primeiro deles foi escrito 40 anos depois da morte de Leônidas, mais ou menos a distância temporal que também separa a crucificação do Nazareno de suas mais antigas “biografias”, os Evangelhos.

Sem o recurso de examinar as chamadas fontes literárias (jeito elegante de dizer “texto velho”), fica impossível estudar a Antiguidade. Claro que isso tem de ser feito com critério e rigor, mas não se deve levar o ceticismo a ultrapassar os limites do que é razoável só porque aspectos sobrenaturais parecem cercar a carreira de Jesus (até porque quase todos os grandes líderes do mundo antigo pareciam funcionar como “ímãs” de histórias sobrenaturais conforme sua história ia sendo recontada e reinterpretada).

Já que toquei no assunto dos detalhes sobrenaturais ou míticos presentes nas narrativas sobre Jesus e outras figuras da Antiguidade que chegaram até nós, acho que é o caso de encarar outra crítica tradicional dos que acham que o profeta de Nazaré nunca existiu. Trata-se da ideia de que o “mito de Jesus” não passa de plágio de outros mitos mais antigos, como mencionei rapidamente há pouco. Afinal, argumentam os defensores da ideia, assim como outros deuses do antigo Oriente Próximo (Baal e Osíris, por exemplo), Jesus também morre e ressuscita; assim como Buda, ele também é tentado pelas forças do mal antes de iniciar sua missão espiritual; e por aí vai.

Bem, esse tipo de crítica tem dois problemas consideráveis, um de simples lógica, outro mais factual. O primeiro eu já esbocei no penúltimo parágrafo: essas histórias maravilhosas são contadas a respeito de figuras perfeitamente humanas do mundo antigo, como Augusto e Alexandre Magno. A reação natural das pessoas diante de seres humanos que se celebrizam parece ter sido transformá-los em seres heroicos e, muitas vezes, divinos. (Ou você acha que essa conversa de “Elvis não morreu, só foi dar um passeio pela galáxia com os ETs” é uma esquisitice exclusivamente moderna?)

Não é porque alguém conta coisas inacreditáveis a respeito de determinado sujeito que as coisas críveis a respeito do mesmo sujeito não aconteceram. Do ponto de vista estritamente racional, a trajetória de Jesus, conforme narrada pelos evangelhos, tem muitas coisas aparentemente incríveis, mas também muitas que fazem sentido do ponto de vista puramente terreno. As primeiras necessariamente têm de ficar no plano da fé (ou da descrença, dependendo das suas preferências filosóficas e religiosas), mas as últimas podem ser checadas com as mesmas ferramentas que os historiadores usam para estudar situações mais prosaicas.

Quanto ao problema factual que mencionei, a questão crucial é evitar jogar o bebê fora junto com a água da bacia, como se diz em inglês. Vários especialistas respeitados já apontaram, por exemplo, as semelhanças entre certos milagres de Jesus, como a multiplicação dos pães, a cura de leprosos e a ressureição dos mortos (no caso não a do próprio Cristo, mas sim sua capacidade de ressuscitar outras pessoas que morreram, como seu amigo Lázaro no Evangelho de João) e os milagres que teriam sido realizados no antigo reino de Israel, no século 9º a.C., pelos profetas Elias e Eliseu. Há quem diga que as semelhanças são tantas que mostrariam que não há base histórica nenhuma para os supostos feitos de Jesus – eles seriam mera recriação literária dos textos do Antigo Testamento.

Pode ser – o mais lógico talvez seja examinar caso a caso cada um dos milagres para ver se os paralelos são tão fortes assim a ponto de sugerir “plágio”. De qualquer modo, mesmo que essas influências literárias tenham sido preponderantes para moldar a maneira como os evangelistas relatam os milagres realizados por Cristo, isso não deveria ser usado como argumento indiscutível contra a ideia de que Jesus atuava como profeta milagreiro ou exorcista. (Note bem: com isso, refiro-me ao fato de que as pessoas da época podem muito bem ter acreditado que Jesus realizava curas milagrosas e expulsava demônios. Se essas coisas realmente aconteciam é uma outra discussão, que nada tem a ver com a história propriamente dita, e sim com pressupostos filosóficos sobre o que é ou não é possível no Universo.) Afinal de contas, temos outros relatos sobre figuras carismáticas da Antiguidade que pareciam realizar curas e enfrentar espíritos maus – alguns deles judeus que viveram poucos anos depois de Jesus, outros pagãos. São dados que se encaixam dentro do ambiente cultural da Antiguidade e, portanto, podem muito bem ser históricos.

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