Americanos de 130 mil anos?

Por Reinaldo José Lopes

Vocês devem ter visto há algum tempinho uma das notícias mais potencialmente bombásticas dos últimos tempos na área arqueológica: indícios indiretos — ossos de mastodonte aparentemente cortados por ferramentas de pedra — de presença humana nas Américas, mais precisamente na Califórnia, há 130 mil anos. É muito tempo, dez vezes mais do que a idade estimada anteriormente.

Bom, pra esmiuçar essa maluquice, entrevistei o bioantropólogo Walter Neves, da USP, um dos maiores especialistas do país na povoação original das Américas. Confiram abaixo a íntegra da minha entrevista com o Walter — ou melhor, o texto com as interessantes impressões dele sobre a pesquisa, após ler o artigo que a descreve publicado na revista “Nature”. Espero que gostem.

Ah, e não deixem de assistir abaixo o vídeo do meu parça Slow, do Science Vlogs Brasil, que resume em linguagem divertida boa parte da controvérsia toda!

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“O artigo está muito bem formulado e as evidências muito bem apresentadas. Irretocável. Estou quase que 100% convencido de que as evidências são de fato resultados de atividades humanas.

Entretanto:
1.Não entendo por que não há marcas de descarnamento e apenas exploração de tutano do osso.
2.A indústria lítica associada [ou seja, as supostas ferramentas de pedra] é primitiva demais pra 130 mil anos (não podemos nos esquecer que o Musteriense, técnica mais refinada, já estava disponível desde há cerca de 280 mil anos)

Boas implicações:
1.Coincide com o fato da indústria lítica da Serra da Capivara (leia-se Pedra Furada) também ser muito primitiva (e muito antiga – 50 mil ou até 100 mil)

Implicações demoníacas:
1.Quem seria o desgraçado do hominínio responsável por essas atividades?
Primeira opção: algum neandertal desiludido com o velho mundo que acabou atravessando a Sibéria entrando no Alasca e se dispersando para o sul até a Califórnia. Já sabemos que estavam no sul da Sibéria. Mas se sim, o que estariam fazendo na California, onde provavelmente o clima era quente?
Segunda opção: algum early [primitivo] homem moderno, mas as evidências dos primeiros modernos na Ásia não ultrapassam 70 mil anos, talvez 45. Além disso, todo mundo concorda que a grande expansão dos modernos a partir da África se deu apenas cerca de 50 mil anos atrás. Mas essa hipótese me é muito interessante porque a morfologia dos primeiros americanos é bem africana, informação essa que venho defendendo desde 1989, como todos vocês muito bem sabem.
Terceira opção: denisovanos, mas quase nada sabemos sobre eles, exceto que estavam nos Urais por volta de 50 mil anos, não eram neandertais e seus genes são encontrados hoje na Melanésia (pode?).

Pergunta que não quer calar:
Se tinha gente aqui desde 130 mil anos o que ocorreu com essa gente, já que todos os demais sítios arqueológicos americanos não ultrapassam 14 mil anos? Tem um gap [intervalo] entre essas duas coisas. Não teriam vingado e depois a América foi ocupada retumbantemente a partir de 14 mil?

Mas que as evidência são fortes, isso são!!!”

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Algum tempo depois, o Walter me mandou mais uma mensagem, contando sobre como ele continuou a avaliar os dados. É bem interessante e vale a pena ler:

“Mais sobre o maldito mastodonte com 130 mil anos:

Fiquei olhando o desenho que eles apresentam no material suplementar e cheguei à conclusão que em termos de comportamento o negócio não bate. Primeiro, certamente eles não estavam buscando tutano para comer. Se isso fosse verdade, teriam quebrado outros ossos longos também, aliás ossos muito mais fáceis de serem quebrados. Outra informação que fala contra a hipótese alimentar é que não houve investimento de descarnamento em outros ossos, muitos deles com grande quantidade de carne associada. Para mim, quando eles “processaram” o diabo do mamute, ele já era esqueleto puro. E mesmo que ainda houvesse tutano, esse já estaria deteriorado. Portanto, na melhor das hipóteses, eles quebraram os fêmures para obter matéria prima óssea para fazer alguma coisa. Mas, de novo, porque não usaram ossos muito mais fáceis de serem lascados? Fico bem tenso quando não consigo entender o comportamento por trás de uma evidência arqueológica…”

Resumo da ópera: só o tempo dirá se foi um grande achado ou um erro colossal, senhoras e senhores!