Evangelhos traduzidos

Por Reinaldo José Lopes

Eu não sou o tipo do cara que usa o adjetivo “primoroso” à toa, mas a nova tradução dos Evangelhos feita pelo helenista português Frederico Lourenço merece. Para quem não sabe grego e é falante nativo da nossa língua portuguesa, é indiscutivelmente o mais próximo do texto original que dá para se chegar (e tem mais coisa vindo por aí: toda a tradução da Bíblia grega no Antigo Testamento, ou Septuaginta, deverá ser publicada). Entrevistei Lourenço para esta reportagem publicada na edição impressa da Folha e tenho o prazer de apresentar a vocês a íntegra da nossa conversa (por e-mail) abaixo. Confiram.

REINALDO – De cara, o que me saltou aos olhos no seu trabalho foi a escolha ousada de “Filho da Humanidade” para traduzir o título mais misterioso de Jesus, “Filho do Homem”. Você cita o livro de Daniel como fonte do título, o que, claro, faz sentido, mas será que não temos ecos do livro de Ezequiel aí, no qual o profeta é chamado por Deus de “ben adam”, “filho do homem”? Nesse caso, será que o uso de “Filho do Homem” não seria mesmo o mais correto? A não ser que a gente considere que Adão era uma espécie de andrógino, como propõem alguns comentaristas de Gênesis 1…

LOURENÇO – É uma expressão difícil de transpor para português, que não tem palavras precisas como tem o hebraico e o grego para dizer “homem” por oposição a mulher (“ish” em hebraico e “aner” em grego) e “homem” no sentido de “ser humano” (“adam” em hebraico e “anthropos” em grego). A expressão que os evangelistas põem na boca de Jesus vem do texto grego de Daniel, que Jesus cita explicitamente. O contexto é diferente do de Ezequiel, a meu ver, onde “filho de homem” significa simplesmente “mortal”. A diferença na expressão dos Evangelhos é que temos duas vezes o artigo definido: “o filho do homem”. Internacionalmente há hoje um grande debate sobre a melhor maneira de traduzir a expressão e a minha opção por “filho da humanidade” já não é tão ousada, como explico na introdução à tradução dos Evangelhos.

Você menciona nos textos introdutórios a influência da Septuaginta sobre os evangelistas. Existe algum ponto em que ela é mais clara e mais importante pro estilo e pra estrutura narrativa dos evangelhos? Seriam as cenas do menino Jesus no Templo em Lucas, por exemplo?

A influência do Antigo Testamento grego vê-se em cada página no Novo Testamento, desde logo no 1º capítulo de Mateus com a citação de Isaías que supostamente previu que uma virgem engravidaria e daria à luz um filho. Como se sabe, a palavra “virgem” nessa passagem não está no texto hebraico; está só no texto grego. No 1º capítulo de Lucas isso também é visível no canto de Zacarias, quando ele fala de um “sol nascente” que também só está no texto grego do Antigo Testamento. Os exemplos são infindáveis. A Escritura judaica dos autores que escreveram o Novo Testamento era o Antigo Testamento grego. Isso é algo que muitas pessoas não sabem. É também por isso que decidi traduzir o Antigo Testamento grego: para que se possa ler em português a Escritura judaica tal como ela era lida pelos primeiros cristãos. Isso parece-me fundamental para a história do cristianismo.

O texto de João, do seu ponto de vista, usa alguma obra filosófica não cristã como modelo literário, ou a semelhança é distante? Já ouvi falar da semelhança com Fílon ou com o platonismo médio, mas gostaria de saber o que você acha.

Eu vejo o Evangelho de João como um texto dotado de grande originalidade literária. Não tem a secura de Fílon nem a obscuridade dos platonistas helenísticos. É talvez o texto mais límpido e transparente que alguma vez se escreveu em grego, o que não significa que não seja muito difícil de interpretar. A originalidade literária vê-se no estilo da escrita em grego: não só é diferente de tudo o que nos chegou em grego, mas é diferente de todos os outros textos do Novo Testamento, inclusive dos outros textos atribuídos a João. Para mim, pessoalmente, é o texto mais belo que conheço, em qualquer língua.

Você também fala da simplicidade deliberada dos evangelistas se comparados à “alta literatura” do período. Você acha que isso é uma “pose” — autores com esmerada formação literária deliberadamente tentando forjar uma linguagem que atinja o maior número possível de pessoas — ou algo que vem naturalmente da pena de pessoas que não eram membros da elite econômica e/ou literária? Já li sobre o estilo aparentemente tosco de Marcos (ou mesmo do autor do Apocalipse), então gostaria de saber o que pensa a respeito.

Eu penso que o estilo simples é claramente uma pose no caso de Lucas, como vemos pelas suas altas capacidades literárias nos primeiros quatro versículos do seu evangelho e por muitos momentos nos Atos dos Apóstolos, sobretudo nos discursos, que estão ao nível da melhor prosa grega clássica. Ele não mantém todo o texto nesse registo porque está interessado em ser acessível. Mas não deixa de mostrar que sabe escrever como alguém que teve uma educação elitista. Em relação a Marcos, eu penso que o estilo é simples, mas não é tosco. A simplicidade faz parte do seu “programa”, por assim dizer. No caso do livro de Apocalipse, temos um texto que mostra algumas excentricidades na redação, mas tem uma força poética extraordinária. Foi um texto que me deu muito prazer estético traduzir.

Última pergunta mais pessoal: você é religioso? Pareceu-me um fã agnóstico de Jesus ao escrever, mas posso estar enganado.

Fui batizado e educado como católico, mas deixei progressivamente de me rever na igreja católica e hoje não professo nem pratico qualquer religião, embora me considere estudioso do Novo Testamento e certamente fã de Jesus de Nazaré. Procuro no meu trabalho de tradução da Bíblia manter-me objectivo e isento em matéria religiosa e focar o trabalho em aspectos históricos e linguísticos. Acho que fazia falta em português uma tradução do Novo Testamento para quem queira estudar o cristianismo no contexto contemporâneo da História das Religiões. Fora de qualquer igreja, portanto.

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