‘Darwinismo’ hindu

Por Reinaldo José Lopes

Mais uma colaboração interessantíssima dos nossos leitores, desta vez discutindo paralelos entre, pasmem, o hinduísmo e a teoria da evolução. Com vocês, Rafael Roldan, senhoras e senhores.

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“Por incrível que pareça, o hinduísmo contém um intrigante paralelo com a moderna teoria da evolução. Obviamente, não se trata de equiparar ciência e religião, mas apenas de enxergar o conhecimento arcaico com menos desprezo. Com isso, pode-se perceber que nem tudo na aurora da civilização era delírio mitológico, podendo conter alguma abordagem clara, ainda que ínfima, da realidade. Assim, podemos lançar luz sobre a história do entendimento humano da verdade.

Muitos pensam que o hinduísmo seja uma manifestação rica e complexa do politeísmo, equiparável às religiões greco-romanas. Entretanto, os hindus são, em essência, monoteístas. Nos Vedas, um dos primeiros registros de linguagem escrita, com aproximadamente 4.000 anos, fala-se em Brahman, o princípio cósmico imanente e transcendente, mais ou menos parecido com o Espírito Santo da Trindade Cristã ou a essência divina do Judaísmo.

A trindade hindu, chamada de Trimurti em sânscrito, não pode ser diretamente comparada àquela do cristianismo, pois o que para os abraâmicos é chamado de Deus, nela é visto em três aspectos divinos personalizados: Brahma, o criador, Vishnu, o preservador ou protetor, e Shiva, o destruidor ou reciclador. Numa visão menos religiosa, seriam o surgimento, a existência e a entropia de tudo.

O conceito de um “filho de Deus” ou de uma manifestação de Deus na Terra, visto como Jesus pelos cristãos, é tratado como Avatar ou “descida” em sânscrito, referindo-se à encarnação de uma divindade. É uma atividade mais amplamente associada ao deus Vishnu, como forma de intervenção divina para manutenção da existência. A tradição hindu registra uma sequência de diversos avatares de Vishnu, especialmente listada no Bhagavata Purana e no Garuda Purana, dois textos clássicos muito importantes para os hindus e bastante antigos.

Contudo, o que essas coisas têm a ver com a teoria da evolução biológica?

Um breve exame dessa sucessão de encarnações de Vishnu, chamada de Dashavatara, mostra uma impressionante correspondência com a progressão evolutiva do ser humano, conforme a ciência hoje a entende, a despeito dos milênios e métodos que as separam. Vejamos:

1)MATSYA, o peixe – o primeiro estágio da vida vertebrada e, possivelmente, de toda a biosfera como a conhecemos, começou em meio à agua. Na mitologia hindu, Vishnu assume a forma de um peixe para avisar Manu, o primeiro ser humano, a respeito do grande dilúvio prestes a ocorrer, orientando-o de modo a construir um barco para que preservasse nele exemplares de todas as sementes e animais da Terra;

2)KURMA, a tartaruga – na segunda fase, temos os seres anfíbios, movendo-se da água para a terra firme. No mito em questão, Vishnu transforma-se em tartaruga para sustentar uma montanha que representou um papel central para que os deuses não perdessem sua imortalidade;

Olhaí o avatar tartaruguesco do deus. (Crédito: Creative Commons)

 

3)VARAHA, o javali – em sua terceira etapa, temos os animais se adaptando para uma vida totalmente terrestre. Na visão hindu, aqui Vishnu salva a Terra da destruição por um demônio;

4)NARASIMHA, o felinantropo – uma ilustração clara do início da família dos hominídeos, bípedes e com diversas habilidades, mas ainda mais animais do que humanos. Mitologicamente, este também foi responsável por acabar com o demônio mais poderoso daquela época;

5)VAMANA, o anão – representando o início do gênero humano, embora num formato diminuto, algo como o Australopithecus. A lenda religiosa traz mais uma vez a conquista dos poderes demoníacos do momento, sugerindo um posterior salto de crescimento morfológico;

6)PARASHURAMA, o guerreiro com machado – ilustra o estágio de desenvolvimento humano das primeiras armas e ferramentas, possivelmente entre o Homo habilis e o Homo erectus. Na mitologia, é um habitante da floresta que apresenta o início das guerras entre seres humanos;

7)RAMA, o príncipe – o início das comunidades humanas, já como Homo sapiens. Dentro do hinduísmo, é o protagonista do épico Ramayana, uma das primeiras “jornadas de herói”, resgatando sua amada Sita, sequestrada pelo – adivinhe só – rei dos demônios;

8)KRISHNA, o boiadeiro – apontando para a vida humana sedentária, por meio da agropecuária, sendo o começo da sociedade civil. Talvez por isso, religiosamente tenha grande importância, aparecendo como centro de uma série de mitos épicos e um grande culto ainda hoje;

9)BUDDHA, o desperto – Bodhi, o estado alcançado por Buda, tem sua raiz no termos sânscrito Buddh (….), “aprender”, indicando a habilidade intelectual em seu ponto máximo. Representa o ápice da cultura humana antiga, com o surgimento da escrita e do conhecimento codificado e sistematizado. Religiosamente, representa uma transformação em relação ao hinduísmo, paralelo ao de Jesus em relação ao judaísmo.

De todo modo, a comparação com o darwinismo é mais iconográfica do que de conteúdo.

As duas últimas posições podem ter variantes em outras listas, ora dispensando a figura de Buda, ora colocando Balarama, o irmão mais velho de Krishna, na oitava posição, e este na nona, mas a noção geral acaba sendo esta ora apresentada. Há também um décimo avatar cuja vinda é aguardada pelos hindus, mas que foge um pouco ao escopo deste texto e, por isso, foi deixado de fora.

Evidentemente, essa visão religiosa não chega aos pés da ciência, embora possa representar um raciocínio protocientífico, calcado em observações empíricas e raciocínio lógico. Com certeza, não se tratou de revelação divina, dado o seu caráter impreciso, como hoje sabemos.

De todo modo, o paralelo é bastante interessante. O mesmo pode ser feito entre a ciência e a cosmologia hindu. Segundo esta, já teriam ocorrido diversos universos antes do nosso e outros ocorrerão depois, infinitamente surgindo, morrendo e renascendo, mais ou menos como especula hoje a cosmologia científica.”

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