Um dragão, dois ogros e um herói

Por Reinaldo José Lopes

Continuando o “esquenta” para o lançamento do novo livro deste escriba que vos fala, “Mitologia Nórdica”, que chega às bancas em junho, vamos a mais um trechinho que ficou de fora da edição final por motivos de espaço: minha análise e “recontagem” da história do herói escandinavo/inglês (você já vai entender por que) chamado Beowulf. Aí vai, espero que gostem!

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O mais importante poema da Inglaterra medieval narra as façanhas de um herói dos tempos antigos da Escandinávia que está imerso numa ambientação cristã, e até bíblica.

Essa figura fascinante é Beowulf, guerreiro que empresta seu nome ao épico. Ninguém sabe exatamente quando os mais de 3.000 versos de Beowulf foram compostos. O poema chegou até nós graças a um único manuscrito, que data mais ou menos do ano 1000 d.C., mas muitos estudiosos acreditam que ele foi composto dois ou mesmo três séculos antes dessa data, quando o processo de conversão dos anglo-saxões ao cristianismo tinha acabado de se consolidar. Essa era a opinião de ninguém menos que J.R.R. Tolkien, o criador de O Senhor dos Anéis, cujo trabalho “oficial” era justamente dar aulas sobre a língua e a literatura inglesa medieval na prestigiosa Universidade de Oxford.

Olha que graça o manuscrito original do poema. (Crédito: Reprodução)

De fato, é possível entrever uma mistura interessantíssima de influências míticas, folclóricas e históricas no caldeirão literário que produziu Beowulf. De um lado, temos o próprio nome do protagonista, que é um kenning ou comparação abreviada com o significado de “lobo das abelhas” (em inglês moderno, bee’s wolf – deu pra sacar?), ou seja, urso, um bicho que adora roubar mel. Originalmente, portanto, Beowulf seria um personagem de lendas folclóricas, o “menino-urso” criado por esses bichos grandalhões na floresta.

Isso explicaria sua descomunal força física. Por outro lado, no poema, o personagem convive com uma série de figuras escandinavas, em especial membros da nobreza da Dinamarca e da Suécia, que parecem realmente ter existido por volta do século 6º d.C., logo depois da queda de Roma. E temos, é claro, figuras mais típicas dos mitos nórdicos, como dragões, ogros e espadas mágicas, mas que são quase sempre citadas dentro de um referencial cristão: Beowulf e os demais personagens falam de um Deus único que controla os destinos dos seres humanos.

A interpretação de Tolkien sobre esses detalhes em seu famoso ensaio Beowulf: the monsters and the critics (“Beowulf: os monstros e os críticos”) é a seguinte: o poeta anglo-saxão que criou o poema obviamente sabia que seus ancestrais heroicos eram politeístas, mas preferiu imaginá-los como figuras equivalentes aos patriarcas do Antigo Testamento, como Abraão, que já sabiam da existência do único Deus verdadeiro e o veneravam mesmo antes do nascimento de Cristo.

Após esse preâmbulo, vamos à lenda propriamente dita. A história começa quando uma grande dinastia de monarcas dinamarqueses, os Scyldings, descendentes do rei Scyld Scefing, decide construir o mais esplendoroso palácio das terras do Norte. (Você deve pronunciar esse sc como se fosse o sh do inglês moderno: Scyld soa mais ou menos como shield, “escudo” – é o significado do nome do rei, inclusive.) Alto e majestoso, com detalhes trabalhados em ouro que o faziam brilhar ao Sol mesmo quando visto a léguas de distância, esse salão do hidromel recebeu o nome de Heorot. Lá nunca faltavam a boa bebida e a generosidade do rei, e a fama do lugar se espalhou por todo o mundo conhecido. Além de ser um anfitrião famoso, o senhor de Heorot, Hrothgar, bisneto de Scyld, jamais perdia uma batalha.

Tamanha glória, porém, estava com os dias contados. Numa das noites de festa no salão de Heorot, um menestrel se pôs a relatar a Criação do mundo em suas canções. “Falou de como o Todo-Poderoso fez a Terra, um vale de beleza radiante que as águas circundam, e de como, em triunfo, ele estabeleceu a luz do Sol e da Lua para iluminar os que habitam as regiões do mundo”, diz o poema. Enquanto Hrothgar e seus nobres ouviam encantados, outros ouvidos captaram o mesmo canto ao longe – e não gostaram nada do que o menestrel dizia.

Confiram a capa do meu novo livro (Crédito: Divulgação)

Eram os ouvidos de Grendel, um ogro de tremenda ferocidade que habitava as charnecas e os pântanos onde nenhum ser humano ousava pôr os pés. Grendel, explica o poeta, era um descendente de Caim, o primeiro assassino das narrativas da Bíblia, que matou seu irmão Abel e, por isso, foi amaldiçoado por Deus. “Dele nasceram todas as raças malévolas, ogros, duendes e formas assustadoras do Inferno, e também os gigantes, que por longo tempo guerrearam contra Deus”, escreve o autor de Beowulf. (Um detalhe importante: o termo que acabamos de traduzir como “duendes” é ylfe – ou seja, literalmente “elfos” – no original. Na cultura anglo-saxã cristianizada, portanto, os elfos passaram a ser vistos como diabólicos, e não mais luminosos.)

Ao ouvir seu inimigo divino sendo reverenciado, Grendel, o descendente monstruoso de Caim, não pôde conter o ódio e partiu para Heorot. Invadiu o palácio do rei Hrothgar e, com a maior facilidade, matou e devorou 30 guerreiros. Nas noites seguintes, o ogro continuou seus ataques sem que ninguém conseguisse nem ao menos arranhá-lo, de modo que o rei e seu séquito tiveram de abandonar Heorot todas as noites, por 12 longos anos.

Assim como a fama da beleza de Heorot viajou pelo mundo, também a desgraça que se abateu sobre o povo do rei Hrothgar atravessou terras e mares, até que um príncipe dos getas, povo do atual sul da Suécia, ficou sabendo do mal que Grendel causara ao rei. O nome do jovem era Beowulf, filho de Ecgtheow, e seu tio, Hygelac, era o rei dos getas. Dono de força equivalente à de 30 homens, Beowulf decidiu que a maneira mais apropriada de alcançar glória imortal seria navegar até a Dinamarca e enfrentar Grendel mano a mano.

Junto com outros 14 companheiros da nobreza dos getas, Beowulf desembarcou na costa dinamarquesa e foi admitido à presença de Hrothgar. Seu primeiro duelo foi com palavras: Unferth, conselheiro do rei, declarou na frente de todos os presentes que já tinha ouvido falar de Beowulf, e que o rapaz não valia nada: ao enfrentar outro guerreiro num desafio de resistência nadando no mar por sete noites, o príncipe dos getas teria sido derrotado facilmente.

“Ora, amigo Unferth, estás cheio de bebida e gastaste saliva demais”, retrucou Beowulf ao ser caluniado. A vitória no desafio tinha sido dele, insistiu: após dias e dias no mar, carregando sua espada e vestido com sua cota de malha, ele matara nove demônios oceânicos que tentaram levá-lo para as profundezas e conseguiu chegar são e salvo, ainda que exausto, à terra dos finlandeses.

Convencido pela eloquência de Beowulf, o rei Hrothgar permitiu que o jovem geta e seus companheiros acampasse em Heorot naquele noite. Beowulf deixou sua espada de lado – já que, segundo os relatos dos homens do rei, nenhuma arma de aço era capaz de ferir Grendel – e se deitou para esperar o monstro.

E Grendel veio. Com olhos que brilhavam como as chamas do Inferno, o ogro entrou no palácio, agarrou um dos companheiros do herói e pôs-se a beber seu sangue e devorar sua carne. Em poucos segundos, nada mais restava da vítima, nem os pés e as mãos. Foi então que Beowulf agarrou Grendel, como o lutador hábil em combate corpo a corpo que era.

Agarrou e simplesmente não o soltou mais. Enfim confrontado por alguém ainda mais brutalmente forte do que ele próprio, o ogro fazia os maiores esforços para escapar, enquanto os amigos do príncipe dos getas tentavam golpear o monstro com suas espadas, sem nada conseguir. Num último puxão desesperado, Grendel tentou se desvencilhar com tanta força que seu braço e parte de seu ombro foram arrancados, ficando presos às mãos poderosas de Beowulf. Deixando para trás um rastro de sangue – que, pela primeira vez, era o seu, e não o das vítimas –, Grendel fugiu para os pântanos. Estava ferido de morte.

Hrothgar, sua rainha e todos os seus súditos celebraram com alegria incontida a vitória de Beowulf ao ficar sabendo do resultado da batalha na manhã seguinte. Ricos presentes foram oferecidos ao herói: um estandarte, elmos e armaduras, oito cavalos adornados com ouro, anéis e colares. Pela primeira vez em mais de uma década, achavam todos, seria possível dormir sem medo em meio ao esplendor de Heorot.

Era cedo demais para comemorar, porém. Naquela mesma noite, a mãe de Grendel, uma ogra quase tão temível quanto seu filho agora às portas da morte, invadiu Heorot, agarrou o pobre Æschere, importante conselheiro do rei Hrothgar, e o arrastou para os pântanos à beira do mar, levando consigo ainda o braço de seu filho, que tinha sido pregado numa das vigas do palácio. (Como descobriram que a mãe do monstro era a culpada? Boa pergunta – eis algo que o poema não explica.)

Assim que a notícia chegou aos ouvidos de Beowulf, o herói se apresentou diante do soberano dos dinamarqueses e anunciou que iria enfrentar a monstra em seu próprio território.

Com a ajuda dos caçadores de Hrothgar, o príncipe seguiu o rastro de sangue deixado pela criatura até o alto de um despenhadeiro. Lá embaixo havia um braço de mar cujas águas estavam manchadas de sangue fresco; entre as rochas do abismo, podia-se ver uma cabeça humana – a cabeça de Æschere. Para completar o quadro horrendo, as águas estavam cheias de serpentes marinhas. Com suas flechas, os guerreiros getas mataram um desses monstros. Beowulf, então, declarou estar pronto para mergulhar no mar tisnado de sangue e caçar a mãe de Grendel.

Assim que chegou ao fundo, o herói foi agarrado pelas mãos poderosas da ogra, mas nenhum dos dois conseguia ferir o outro: a armadura de cota de malha protegia Beowulf, enquanto a espada do guerreiro não era capaz de ferir a criatura infernal. Os dois saíram da água e chegaram a uma caverna escavada na rocha viva, a morada dos monstros. Grendel jazia no chão da gruta, já morto.

Beowulf largou a espada que trouxera e agarrou os cabelos da ogra, lançando-a ao chão. Rápida feito serpente, porém, ela revidou e tentou matá-lo com uma adaga, o que só não aconteceu graças à cota de malha do herói, mais uma vez. Foi então que Beowulf viu ali perto, na caverna, uma estranha espada, uma obra dos antigos gigantes que fora lançada naquele lugar na época do Dilúvio. Sem pensar muito, tomou-a em suas mãos e atravessou com ela o ventre da ogra.

A mãe de Grendel estava morta, afinal, e Beowulf ainda usou a espada dos gigantes para cortar a cabeça do cadáver de Grendel. Foi a última vez que empregou a arma: o sangue maldito dos ogros fez com que sua lâmina se esvaísse como neve que derrete no verão.

Mais uma vez celebrado pelos nobres de Heorot, o príncipe pôde enfim voltar à terra dos getas, onde narrou seus feitos diante do rei Hygelac. Os anos se passaram. Como seu tio não deixou herdeiros, Beowulf assumiu o trono, governando sabiamente por cinco décadas. Embora não tivesse filhos, Beowulf parecia prestes a encerrar em paz um reinado glorioso quando o dragão surgiu.

Conta-se que o monstro guardara por 300 invernos um tesouro gigantesco armazenado debaixo da terra por reis dos tempos antigos. Um escravo fugitivo, sem saber da existência do dragão, acabou descobrindo o monte artificial onde as riquezas estavam armazenadas e retirou de lá uma única taça de ouro, decidindo levá-la para seu antigo amo, talvez para se reconciliar com ele. Dragões são absurdamente ciumentos quando o assunto é tesouro, entretanto – de modo que a criatura, sentindo-se provocada, pôs-se a devastar as terras dos getas com seu sopro de chamas.

Ao saber dos ataques do dragão, Beowulf mandou forjar um escudo todo feito de ferro, pois sabia que meros escudos de madeira jamais seriam páreo para o bafo daquele inimigo tremendo. Tomou então consigo 11 jovens guerreiros de seu povo e foi até a toca do monstro. Pediu, no entanto, que eles esperassem a uma distância segura do covil, dizendo: “Esta não é uma missão para vós, nem está dentro da medida de homem algum exceto eu testar suas forças contra tão feroz destruidor”. Concluído o discurso, partiu para atacar o dragão.

Naquela hora, a voz cansada do velho rei pareceu se rejuvenescer quando ele se aproximou da entrada do covil e emitiu seu grito de guerra. O dragão ouviu e, cheio de fúria, lançou suas chamas contra Beowulf. O novo escudo protegeu o rei dos getas o suficiente para que ele se aproximasse e atacasse o monstro com sua espada, mas só conseguiu feri-lo superficialmente, deixando-o ainda mais enfurecido. De longe, os guerreiros getas perceberam que a batalha caminhava mal para seu soberano, mas nenhum teve coragem de sair em defesa dele – nenhum, exceto um jovem parente de Beowulf, chamado Wiglaf (nome que, significativamente, quer dizer algo como “o que resta da batalha”).

Wiglaf se posicionou ao lado de seu senhor, protegendo-se atrás do escudo do próprio Beowulf, uma vez que o escudo do rapaz, feito de madeira, tinha evaporado diante das chamas do dragão. O monstro conseguiu ferir o rei, mas a espada de Wiglaf enfim atingiu o ventre relativamente desprotegido da criatura, rasgando-o. Beowulf, então, usou uma adaga que guardara para aquele último confronto desesperado para ampliar essa abertura, abrindo a barriga da criatura de cima a baixo, até que o dragão expirou. O rei, por sua vez, também estava morrendo.

Beowulf pediu a Wiglaf que lhe desse um funeral digno dos heróis antigos, e assim o jovem nobre o fez. Um monte artificial foi erguido para abrigar as cinzas do rei perto do litoral, junto com incontáveis tesouros de ouro e prata. Dali por diante, o Monte de Beowulf seria visto por todos os que desembarcassem nas praias dos getas. O povo todo o chorou: “Dentre todos os reis da Terra fora sempre o mais generoso, para com seu povo o mais gentil e o mais ávido por glória”.

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