Conheça as cidades perdidas do Xingu

Por Reinaldo José Lopes

Faz séculos que a suposta existência de cidades perdidas no coração da Amazônia seduz a imaginação das pessoas. Desde a última década, arqueólogos e antropólogos sérios estão achando vestígios dessas cidades no Alto Xingu, mas elas são bem diferentes do imagino pela ficção: representam um tipo de ocupação urbana “distribuída”, espalhada, com vários núcleos em torno de uma mega-aldeia com alguns milhares de habitantes. Saiba mais sobre essas descobertas no vídeo e, se ficar interessado em saber ainda mais, não deixe de conferir meu novo livro, chamado “1499: O Brasil Antes de Cabral”.

Uma rápida versão em texto pra quem não gosta de vídeo segue abaixo.

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Tradicionalmente as aldeias da tribo Kuikuro e de outros povos do Alto Xingu têm um esquema de divisão de “ruas” ou “estradas” que seguem uma ordem bem clara: uma estrada principal no sentido leste-oeste, outra no sentido norte-sul, seguindo os pontos cardeais mesmo e, às vezes, caminhos secundários num ângulo de 45 graus com as demais.

Bom, as pesquisas das últimas décadas na região, que estão sendo lideradas pelo Michael Heckenberger, da Universidade da Flórida em Gainesville, e pelo Carlos Fausto e pela Bruna Franchetto, do Museu Nacional da UFRJ, estão mostrando que, antes do contato com os europeus, esse esquema de povoamento já existia, mas numa escala muito maior e com um tipo de organização do espaço do Xingu bem mais complicado e interessante.

As datas de carbono-14 que essa equipe obteve na região indicam que o apogeu da ocupação humana por lá foi entre 700 e 500 anos atrás, embora já houvesse gente na região há uns 1.500 anos pelo menos.

A primeira coisa que chama a atenção é a quantidade dos assentamentos antigos: só no território dos Kuikuro, que hoje tem só três aldeias, você tinha cerca de 20 assentamentos mais ou menos contemporâneos antes do contato.

Mas não é só questão de quantidade de aldeias: tem também a questão do tamanho. Vários desses assentamentos antigos chegavam a uns 50 hectares, ou seja, uns 50 campos de futebol de tamanho, que é mais ou menos dez vezes o tamanho das aldeias atuais – em vez de algumas centenas de pessoas, você podia ter alguns milhares, até umas 5.000 pessoas, em cada núcleo de povoamento.

E, fora isso, você tem a questão da organização espacial do território, uma espécie de planejamento urbano de grande escala. Esses grandes centros, com milhares de habitantes, estavam dispostos de tal jeito que eram meio que o Rodoanel da região, centralizavam e organizavam um sistema de estradas de grandes dimensões que os pesquisadores chamam de sistema “galáctico” por analogia com as galáxias mesmo – como aglomerados de estrelas que giram em torno do centro da nossa galáxia.

As estradas chegavam a ter dezenas de metros de largura, tinham um “acostamento” feito com terra elevada, se estendiam por vários quilômetros de extensão e incluíam ainda um sistema de pontes para atravessar os rios e lagos da área.

Dentro das próprias mega-aldeias, você tinha um grande terreiro cerimonial similar ao dos atuais Kuikuro e outras tribos, só que bem maior, e às vezes havia ainda um terreiro secundário. Era um local pra festas e também pra cerimônias fúnebres.

As casas ficavam em volta do terreiro, mas havia ainda um anel externo de fortificações: um fosso que podia ter um perímetro de alguns quilômetros, com vários metros de profundidade e até dezenas de metros de largura, e uma muralha de toras de madeira, às vezes com mais de um portão de entrada.

Esse, como eu falei, era o esquema das “metrópoles” entre aspas. Conectadas a elas pelas estradas você tinha aldeias menores com terreiro cerimonial mas sem muralhas e fossos, pequenos povoados sem terreiro e aí tanto zona rural – plantações de mandioca e pomares de pequi, represas artificiais pra criação de peixes, canais para canoas – quanto floresta que era manejada, com extração de frutas, madeira, matérias-primas caça etc.

O argumento dos pesquisadores pra classificar esse sistema como urbano, e eu acho que faz bastante sentido, é em primeiro lugar a quantidade considerável de gente concentrada num território e a organização espacial cuidadosa desse território, com conexões entre as áreas e hierarquia provavelmente política e ritual entre elas, ainda que não seja uma ocupação muito densa.

É um modelo de cidade verde, digamos, que a gente poderia comparar a Brasília ou a áreas residenciais nobres de hoje.

Tinha um rei do Xingu nessa época? Provavelmente não, mas a hierarquia espacial, de novo, sugere que você tinha linhagens nobres que controlavam os diversos centros cerimoniais, e essas linhagens nobres ainda estão presentes nos povos atuais do Xingu.

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