Olavo de Carvalho afunda série do Brasil Paralelo

Por Reinaldo José Lopes

Atendendo a pedidos, analisei o ep. 1 da série de vídeos de história do Brasil Paralelo, que recebeu o título geral “Brasil: A Última Cruzada”. Resultado: a perspectiva “cruzada” é interessante e importante, mas há uma série de erros bizarros também — dois deles cometidos por ninguém menos que Olavo de Carvalho. Confiram o vídeo.

Resumindo mui velozmente meus principais pontos contenciosos do vídeo pra quem não gosta de YouTube:

1)O lado interessante da perspectiva deles é mostrar o papel da ideologia do conflito religioso entre o cristianismo e o Islã como motor da expansão ultramarina portuguesa, algo demonstrado em livros recentes como “Guerra Santa”, de Nigel Cliff, que inclusive eu resenhei para esta Folha.

2)Dito isso, temos as duas grandes bobagens ditas por Olavo de Carvalho. A primeira foi dizer que o império islâmico, o primeiro grande califado da história, foi muito mais tirânico com seus súditos do que o Império Romano, que “dava cidadania para todo mundo de cara”. Bobeira: na maior parte dos séculos de domínio romano, 90% ou mais da população do império não tinha direitos políticos, não era cidadã.

3)Outra coisa importantíssima: Carvalho reforça muito a ideia de que grupos não muçulmanos eram oprimidos pelo califado, transformados em cidadãos de segunda classe. Bem, mais ou menos — beeeem mais ou menos, na verdade. Primeiro, pros grupos cristãos orientais que não seguiam a ortodoxia do Império Bizantino, e pros judeus, a chegada do Islã foi, em certa medida, um alívio. A pressão para conversão ao islamismo demorou séculos para aparecer, por motivos econômicos: dava para cobrar impostos mais altos dos não muçulmanos.

4)Um ponto que não mencionei no vídeo: mesmo durante a Reconquista cristã contra os mouros na Espanha, a relação entre as fés foi super complicada. Os “reis católicos” Fernando e Isabel, por exemplo, que enfim conquistaram o último enclave do Islã na península Ibérica, passaram décadas manipulando e extorquindo a dinastia muçulmana de Granada, em vez de simplesmente ir lá e derrotar os “infiéis”.

Resumindo: até vale assistir, mas com muitos grãos de sal.

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