Darwin e Deus

Um blog sobre teoria da evolução, ciência, religião e a terra de ninguém entre elas

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Blog aborda os mais recentes estudos sobre a evolução do homem e dos demais seres vivos, explica o que a ciência tem a dizer sobre o fenômeno da fé e a história das religiões. É produzido pelo jornalista Reinaldo José Lopes.

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Um papado socioambiental?

Por Reinaldo José Lopes

Ainda parece cedo para dizer em que direção vai o novo pontificado de Francisco em relação ao diálogo entre ciência e religião — embora, como arcebispo e cardeal, Jorge Bergoglio tenha manifestado sua oposição à pesquisa com células-tronco embrionárias humanas, o que não é de surpreender, já que se trata da oposição oficial da hierarquia católica desde que esse tipo de estudo entrou em pauta. Por outro lado, os primeiros sinais, a começar pelo nome escolhido pelo novo papa, sugerem que a preocupação ambiental deve ganhar maior relevo neste pontificado.

Papa Francisco: “Nossa relação com o mundo criado não é exatamente boa, não?”

É claro que é exatamente isso o que se espera de um pontífice que decide se chamar Francisco por causa de são Francisco de Assis. O santo medieval que chamava até o fogo, o Sol e a Lua de irmãos, sobre quem se contam inúmeras histórias de uma relação muito próxima com os animais, sempre foi considerado um profeta do movimento ambientalista. Quando ficou confirmado que a homenagem do nome era mesmo para o “pobrezinho” de Assis, muita gente achou que seria só questão de tempo até as referências à crise ambiental  pela qual o mundo passa aparecessem nos discursos do novo papa.

A primeira pista de que a coisa era mesmo por aí veio no primeiro encontro entre Francisco e os jornalistas, no último sábado, dia 16. Ao contar como escolheu seu nome, ele citou três fatores: a pobreza; a paz (Francisco, lembrem-se, foi talvez o único representante da Igreja medieval a tentar converter os muçulmanos conversando, e não no lombo de um cavalo de guerra); e, finalmente, porque Francisco é “o homem que ama e protege o mundo criado; neste momento também nós temos com o mundo criado uma relação não tão boa, não?”.

E, nesta terça, na homilia da missa que marcou o início oficial do pontificado de Francisco, o tema voltou à baila diversas vezes. Talvez o centro do sermão, cujo tema é o cuidado que José tem com Maria e com o menino Jesus, seja este tema essencialmente franciscano:

“A vocação de proteger, porém, não diz respeito somente a nós cristãos, tem uma dimensão que precede a isso e que é simplesmente humana, diz respeito a tudo. É o proteger a criação inteira, a beleza da criação, como nos diz o livro do Gênesis e como nos mostrou são Francisco de Assis: é ter respeito por toda criatura de Deus e pelo ambiente no qual vivemos.”

Muito já se escreveu sobre a parcela da culpa da tradição judaico-cristã e do livro do Gênesis pela crise ambiental atual — basicamente pelo fato de os ocidentais terem levado a sério o mandamento divino de “dominar” a Terra e de fazer uso dela. São Francisco de Assis nada contra essa corrente ao chamar todos os seres vivos (e até não vivos) de irmãos.  Se o papa enfatizar de fato esse aspecto da espiritualidade franciscana — e quem sabe escrever uma encíclica sobre ele? — coisas interessantes podem acontecer. Here’s hoping.

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