Darwin e Deus

Um blog sobre teoria da evolução, ciência, religião e a terra de ninguém entre elas

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Blog aborda os mais recentes estudos sobre a evolução do homem e dos demais seres vivos, explica o que a ciência tem a dizer sobre o fenômeno da fé e a história das religiões. É produzido pelo jornalista Reinaldo José Lopes.

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Check-up de hominídeo

Por Reinaldo José Lopes
“Australopithecus sediba”: 2 milhões de anos e ainda dá um caldo

 

Folha de hoje traz reportagem minha, editada com o esmero costumeiro pela colega Débora Mismetti, sobre a nova batelada de “papers” (artigos científicos) investigando a anatomia funcional e o parentesco evolutivo do Australopithecus sediba, um interessantíssimo hominídeo sul-africano com quase 2 milhões de anos de idade.

Convido o gentil leitor a ler a reportagem, mas queria aproveitar este espaço para discutir algumas coisinhas que não cabem no relevante mas limitado espaço do papel.

Para começar, acho que é bacana reproduzir na íntegra o e-mail que troquei com Jeremy DeSilva, o pesquisador da Universidade de Boston que conduziu o que talvez seja a parte mais crucial do trabalho de análise do A. sediba, ou seja, o estudo de sua locomoção. Perguntei se ele conseguiria descrever o jeito de andar do primata como se descrevesse uma pessoa andando na rua, e aproveitei para checar se o sobrenome aparentemente luso dele realmente era de origem portuguesa (ou quiçá brasileira). Confira o que ele respondeu.

“Caro Reinaldo,

Jeremy DeSilva: é, ele tem cara de sueco mesmo

Obrigado por seu e-mail e por seu interesse nos artigos sobre o sediba. Sim, meu sobrenome é português — do lado do meu pai, meu trisavô veio dos Açores (ainda que você fosse incapaz de saber só olhando para mim — herdei muito do lado sueco da minha mãe!).

O jeito de andar do sediba era muito curioso. De longe, pareceria um ser humano andando — perna e quadril totalmente estendidos (e não curvados como os de um chimpanzé). No entanto, se você pudesse se aproximar dele, veria um jeito de andar diferente. Ele não apoiaria o calcanhar no chão como os seres humanos (o calcanhar é muito, muito pequeno e não está adaptado às forças de contato entre o calcanhar e o chão). Seus passos seriam relativamente curtos e rápidos. Além disso, nossa hipótese é que ele se apoiaria na parte externa de um pé relativamente chato.

Isso faria com que o pé se enrolasse para dentro (pronação) na direção do dedão. Como a perna está ligada ao pé, isso iniciaria uma reação em cadeia que teria impactos no joelho, no quadril e na parte inferior das costas. Conforme o pé se enrola para dentro, o joelho também giraria para dentro, e finalmente o quadril faria a mesma coisa. Ao observar isso, você provavelmente notaria quanta rotação e torção estava acontecendo no pé, no joelho e nas juntas dos quadris.

Alguns seres humanos chegam perto desse tipo de caminhar, são os chamados hiperpronadores. Essas pessoas têm problemas nos pés, no joelho, nos quadris e nas costas.  O que é maravilhoso no caso do sediba é que ele tem, em seus pés, seus tornozelos, seus joelhos e suas costas, anatomias que são ou subprodutos ou soluções anatômicas para exatamente os mesmos problemas que os seres humanos de hoje enfrentam se caminharem desse jeito. É um exemplo sensacional de um jeito diferente de caminhar — ilustrando o fato de que diferentes experimentos para o andar bípede evoluíram no nosso passado. Espero que isso ajude!

Jeremy.”

É claro que essas características únicas do caminhar do bicho se refletem em outros aspectos de seu esqueleto, um mosaico (como dizem os cientistas) de características que lembram os grandes macacos atuais e outras que se aproximam mais das do gênero humano. Dá pra ver bem isso na comparação de três esqueletos abaixo:

Da esq. para a dir., esqueletos de ser humano, australopiteco e chimpanzé

Como dito na legenda acima, o A. sediba é o do meio, ladeado por um ser humano e um chimpanzé. Nem é preciso usar vocabulário técnico de anatomia para perceber a morfologia intermediária — o tal mosaico — do nosso amigo australopiteco. Atente, por exemplo, para o formato suavemente arredondado da cabeça da criatura, ou para a ausência de grandes caninos quando o comparamos com o chimpa da direita — é o que os especialistas chamam de aparência grácil, ou seja, relativamente mais franzina.

O formato dos quadris também é nitidamente mais “humanizado” que o do chimpanzé, um dos sinais claros de postura bípede como a nossa, mas repare no formato do conjunto compreendido pelos ombros e pelas costelas. Em vez do tubo mais ou menos reto do ser humano moderno, o tórax do A. sediba lembra um funil com a boca para baixo, o que lhe dava uma postura de quem estava “dando de ombros”, um tanto encolhida.

Resumo da ópera

Alguns dirão que o A. sediba não é o célebre “elo perdido”, e estarão certos — ainda há um bocado de controvérsia acadêmica a respeito do ancestral exato do nosso gênero humano, o Homo, e a dúvida fica ainda mais cruel quando se trata de saber quem foi o primeiro membro da nossa linhagem a se separar da árvore genealógica que desembocaria nos grandes macacos africanos de hoje. O ponto que deve ser enfatizado, no entanto, é outro: numa visão de conjunto da nossa história evolutiva, essas dúvidas não importam muito.

O que o A. sediba nos permite enxergar com clareza especial porque o material fóssil associado à espécie é muito completo — e o que aparece em todos os outros hominídeos, tanto africanos quanto de outros continentes — é que, seja qual for a história ancestral a ancestral, existe uma série quase infinita de gradações entre o “tipo humano” e o “tipo macaco” (para usar de propósito uma linguagem com cheiro de naftalina, bem ao gosto de vocês-sabem-quem). E, adivinhe só, usando o telescópio temporal, o mais comum é que as formas de bípede “macacal” sejam cada vez mais comuns conforme se avança para o passado, enquanto o oposto vale para as formas com cara humana.

Isso não quer dizer, claro, que estejamos falando de uma marcha inexorável rumo a nós, os reis da Criação. Na mesma época em que o A. sediba vagava pela África do Sul, provavelmente existiam entre três e quatro espécies distintas de hominídeo no continente africano, cada uma  delas com anatomia e adaptações específicas. A existência de uma única espécie de primata do nosso grupo hoje é um acidente evolutivo recente, da ordem de meras dezenas de milhares de anos. Sempre achei essa uma excelente razão para agradecer à nossa boa estrela e fazer jus a essa sorte grande.

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