Darwin e Deus

Um blog sobre teoria da evolução, ciência, religião e a terra de ninguém entre elas

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Blog aborda os mais recentes estudos sobre a evolução do homem e dos demais seres vivos, explica o que a ciência tem a dizer sobre o fenômeno da fé e a história das religiões. É produzido pelo jornalista Reinaldo José Lopes.

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Morte e impostos

Por Reinaldo José Lopes

A crença na eternidade, apesar de efeitos colaterais como a Inquisição e os homens-bomba, teve um papel civilizatório importante ao longo da história do Ocidente, controlando a violência, argumenta o historiador cubano-americano Carlos Eire, 62, da Universidade Yale (EUA).

O professor Carlos Eire, historiador da Universidade Yale (EUA)

Apesar da vastidão do tema, Eire decidiu contar sua trajetória na cultura ocidental nas pouco mais de 300 páginas de “Uma Breve História da Eternidade”, que está saindo no Brasil pelo selo Três Estrelas, do Grupo Folha.

Num passeio que vai de Platão à cosmologia do Big Bang, o pesquisador explora não só o impacto teológico e filosófico das ideias sobre a eternidade como também seus surpreendentes impactos financeiros – boa parte da economia das potências católicas da Era dos Descobrimentos, como a Espanha, por exemplo, provavelmente girava em torno do cuidado com a “saúde” dos mortos no além, calcula ele.

Eire foi para os Estados Unidos aos 11 anos de idade, como uma das 14 mil crianças cubanas levadas por via aérea ao país durante a chamada Operação Peter Pan, motivada por rumores de que o governo de Fidel Castro levaria meninos e meninas para campos de trabalho soviéticos. Falei com ele por Skype na semana passada (um textinho resumindo ferrenhamente a conversa saiu no caderno “Ilustrada” deste sábado — abaixo coloco a conversa praticamente na íntegra). Durante nosso papo, Eire elogiou os primeiros movimentos do papa Francisco, disse que Raúl Castro está se mostrando um líder ainda mais repressor do que Fidel em Cuba e afirmou que entender antigas heresias cristãs pode trazer insights importantes sobre o mundo moderno. Confira.

 

Por coincidência, antes de ler seu livro, eu tinha lido a obra mais recente do psicólogo evolucionista Steven Pinker. O contraste é interessante porque, enquanto o sr. argumenta que a diminuição da crença na eternidade favoreceu o aumento da violência, Pinker diz exatamente o contrário. Quem está certo, afinal? Ou há forças opostas agindo?

Carlos Eire – No fundo eu acho que é praticamente impossível provar esse tipo de relação de causalidade entre crenças e comportamento. Quer dizer, que tipo de dados você precisa ter para conseguir provar isso? Depende muito, é claro, da cultura da qual você está falando. No caso do islamismo fundamentalista, talvez ele tenha razão, mas…

 

Ele está se referindo ao Ocidente moderno mesmo, nos últimos 500 anos ou 200 anos.

Bem, no caso do Ocidente, acho um pouco difícil quantificar isso. Uma coisa é falar de 200 anos. Mas, se você olhar para o longo prazo, nos últimos mil anos desde o século 10o, a crença na eternidade, que eu acho bastante difícil de separar do cristianismo, ajudou a criar um tipo de sociedade na qual a violência era mais controlada. E isso valeu, de uma forma ou de outra, até o século 20, quando alguma coisa acontece e temos a Primeira Guerra Mundial e a Segunda Guerra Mundial, nas quais esses controles parecem desaparecer, e a crença na eternidade diminui em paralelo a esse fenômeno.

 

Na sua opinião, isso vale mesmo quando consideramos coisas como a Inquisição e as guerras religiosas na Europa do século 17? Essas são as coisas que o movimento ateu gosta de citar…

Claro que eles adoram fazer isso, é uma ótima flecha no arsenal deles. Mas isso é só parte do quadro. Durante o Império Romano, as pessoas costumavam ir até a arena para assistir outras pessoas se matando. A vida era barata e, de certa forma, sem valor. Talvez seja demais dizer que o cristianismo e a crença na eternidade causaram o fim dos combates de gladiadores, mas faz bastante sentido. Mesmo na Idade Média, havia uma forma controlada de violência.

Isso começa a se esfacelar com a Reforma protestante – a Guerra dos 30 anos [conflito que, inicialmente, opôs protestantes e católicos na Europa a partir de 1618] é um exemplo disso. E a partir daí parece haver um declínio progressivo da crença na eternidade até as guerras do século 20.

 

Em seu livro, o sr. fala da ênfase renovada em rituais como missas e orações pelos mortos adotada pela Igreja Católica depois da Reforma. Mas no século 20, em especial depois do Concílio Vaticano 2o, que buscou modernizar uma série de aspectos do catolicismo, isso não muda consideravelmente?

Isso é muito curioso. Oficialmente, nada mudou. O que mudou é que a cultura da maioria dos católicos se transformou de tal maneira que o cuidado com os mortos, por assim dizer, deixou de ser enfatizado. Uma das coisas chocantes nesse sentido foi, na segunda metade do século 20, quando a Igreja Católica passou a aceitar a cremação – uma mudança enorme no magistério católico que simplesmente aconteceu. Lembro-me do caso do filho do presidente John Kennedy, membro de uma família católica, que morreu num acidente aéreo – suas cinzas foram espalhadas no mar com um padre presente. Hoje, os católicos podem ser enterrados em qualquer lugar.

 

E é raro ouvir menções ao Purgatório nas missas hoje, certo?

Sim, acho que a última vez que ouvi alguém falar do Purgatório na missa foi em 1960. As pessoas ainda pagam por missas em favor dos mortos, claro, e a crença ainda é parte do magistério oficial, mas na prática não se presta mais atenção a isso. É comum que exista esse atraso entre as mudanças na cultura e o que o centro da religião, o papado ou os concílios, levam em consideração.

 

É verdade que em Yale o sr. ministra um curso chamado “Heresias Essenciais”? O que são heresias essenciais para o sr.?

Bem, a primeira coisa que fazemos na aula é abordar Jesus como um herético judaico, como o defensor de uma forma bastante peculiar de judaísmo – a crença na ressurreição dos mortos, que estava longe de ser aceita por todos os judeus na época dele e, claro, acaba se tornando a crença central do cristianismo.

Também falamos de outro tipo de heresia que reaparece ao longo de vários séculos. Trata-se da ideia de que o mundo material é mau, que na prática este mundo é o inferno, e que o propósito de quem quer se salvar é escapar deste mundo. É o que vemos no caso dos gnósticos nos primeiros séculos do cristianismo e, durante a Idade Média, os albigenses e os cátaros.

Também falamos das heresias que acabaram se tornando dominantes. É o caso da própria Reforma protestante, que desencadeia uma gama ampla de ideias que inicialmente só podiam ser vistas como heréticas, o pensamento de Galileu e de Darwin, e até uma heresia estética, digamos, que é o impressionismo.

 

E, no caso das heresias do mundo antigo e medieval, que parecem ter como centro ideias teológicas completamente abstrusas para pessoas de hoje, o sr. acha que há algo a aprender com elas?

Sim, com certeza. Tomemos o caso dos gnósticos, por exemplo, para quem o mundo era mau e o importante é escapar dele. Já encontrei alguns ambientalistas que parecem ter uma visão invertida desse tipo de pensamento, segundo o qual os seres humanos é que são maus e que a Terra ficaria muito melhor sem nós. Não sei se você já viu alguns documentários que mostram como o planeta ficaria se o ser humano deixasse de existir. Você vê certo deleite em relação à ideia de uma Terra purificada que lembra o pensamento gnóstico.

 

Como o sr. tem visto as primeiras semanas do papa Francisco? Muita gente parece empolgada com ele, mas alguns católicos tradicionalistas não reagiram nada bem a certas atitudes do novo pontífice…

Neste momento, ele é uma anomalia, não só pelo fato de vir da Argentina, mas também por ser um jesuíta, que tem de lidar com o superior-geral dos jesuítas [chefe global da Companhia de Jesus], o que é uma situação inédita e paradoxal. Afinal, um jesuíta faz votos de obediência absoluta ao papa e ao superior-geral de sua ordem, mas o que acontece quando um jesuíta que não é o superior-geral se torna papa?

Sinto que ele pode ser uma verdadeira lufada de ar fresco em atitudes como seu desdém pela riqueza e sua humildade. O que ele fez ao lavar os pés daqueles prisioneiros, incluindo mulheres, foi fantástico.

Os católicos conservadores que ficaram chocados com isso são uma minoria minúscula, que praticamente não conta, mas a imprensa americana e europeia amplificou essas reações, assim como as alegações sobre os elos entre o papa e a ditadura argentina nos anos 1970, as quais também parecem ter caído por terra.

O compromisso com a pobreza e com os pobres é importantíssimo. Mas temos de levar em conta que ele tem 76 anos. Diferentemente de João Paulo 2o, que foi eleito na casa dos cinquenta anos e justamente por isso conseguiu mudar a Igreja, por ter sido papa por tanto tempo, o papa Francisco talvez tenha, no máximo, uns dez anos pela frente. Vai depender muito da saúde dele.

 

Alguns diriam, inclusive na Igreja brasileira, que o foco em questões sociais, deixando questões espirituais de lado, é uma das razões da perda de fiéis na América Latina.

Acho difícil colocar isso em números. As pessoas se desiludem com o catolicismo por todo tipo de razão. Por outro lado, muitos acabam procurando os evangélicos por causa do compromisso social, por causa do forte componente social nessas igrejas. Não dá para ficar isolado no seu canto, você é sempre parte de um grupo mais coeso de pessoas. Aqui nos EUA, quando você vai a uma igreja protestante pela primeira vez, sempre fazem você ficar de pé e se apresentar. Numa paróquia católica, você tende a entrar e sair de forma mais anônima.

Também não acho que a preocupação com a justiça social seja só algo típico da Igreja latino-americana. Meu filho mais novo estava tentando ser aceito na faculdade e visitou várias universidades católicas aqui. E uma exigência delas era que todo aluno deveria realizar serviços comunitários, além de listar a justiça social como um dos objetivos da universidade.

 

E quanto às questões de comportamento sexual, a velha lista: celibato clerical, ordenação de mulheres, anticoncepcionais, aborto, homossexualidade? Elas não desempenham um papel mais importante no afastamento dos fiéis, na sua opinião?

Acho que a Igreja sempre foi, em um nível considerável, contracultural – ou seja, oposta ao “mundo”, como se diz. Como católico, concordo com a ideia de que a Igreja não está aqui para simplesmente seguir a corrente. No meu tempo de vida, eu esperaria mudanças como o sacerdócio de homens casados, talvez algum relaxamento em relação aos contraceptivos, mas não mais que isso.

No caso do clero casado, temos precedentes históricos. Mas, quando falamos de aborto, a questão envolve a visão que se tem sobre a santidade da vida humana, o que é muito mais complicado.

 

Como o sr. vê a situação política atual em Cuba, e quais suas esperanças, ou talvez seus medos, para o futuro do país?

Em primeiro lugar, os ponteiros do relógio continuam correndo. Raúl [Castro] está se mostrando pior do que Fidel em vários aspectos. As chamadas reformas não passam de tentativas de manter as coisas como estão e até de aumentar o controle sobre a população, então não vejo muita esperança quando penso nelas.

Por outro lado, estou começando a ver coisas que podem ser rachaduras das grandes, erros estúpidos parecidos com os que a União Soviética cometia em seus últimos anos. Acho que o caso da visita da [blogueira e ativista] Yoani Sánchez ao Brasil foi um desses erros, porque eles organizaram protestos contra ela e a coisa saiu totalmente pela culatra. Nem consigo entender por que a deixaram sair, porque tem havido mais prisões de dissidentes e negações de visto em Cuba atualmente do que em toda a última década.

Por outro lado, no caso das chamadas reformas econômicas, será que se um número suficiente de estrangeiros comprar propriedades em Cuba algo pode acontecer? Não sei, até porque você precisa ser muito corajoso ou muito estúpido para comprar propriedades em Cuba, um lugar onde a propriedade privada nem está definida legalmente, a rigor. Para mim, a parte mais sombria da história é que a imensa maioria dos cubanos não pertence à oligarquia que governa o país e ganha 20 dólares por dia, então eles não podem comprar casas ou fazer empréstimos em bancos.

O fato é que, quando Raúl morrer, tudo vai mudar – e ele vai morrer logo, mesmo que viva cem anos. O que acontece depois, no entanto, é difícil de saber.

Vou dizer, no entanto, o que eu não quero ver: não quero ver outro Vietnã ou outra China. Espero que aconteça uma grande mudança.

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