Darwin e Deus

Um blog sobre teoria da evolução, ciência, religião e a terra de ninguém entre elas

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Blog aborda os mais recentes estudos sobre a evolução do homem e dos demais seres vivos, explica o que a ciência tem a dizer sobre o fenômeno da fé e a história das religiões. É produzido pelo jornalista Reinaldo José Lopes.

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Dr. Church e a Igreja da Ressurreição

Por Reinaldo José Lopes

O ritmo do jornalismo e o da vida normal muitas vezes — para não dizer quase sempre — não coincidem. Há algumas semanas, saí correndo atrás de cientistas importantes que pudessem falar comigo sobre os 60 anos da descoberta da estrutura do DNA. Uma das tentativas falhou quando eu precisava — não consegui falar com George Church, geneticista da Universidade Harvard e do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts). Só agora Church arrumou um tempinho para responder, e foi breve, mas deixou no caminho uma pequena pérola que eu acho que é relevante para este blog.

E daí chegamos à brincadeira no título do post, não só porque Church quer dizer “igreja” em inglês, mas porque o pesquisador tem sido um dos defensores da ideia de “desextinção” — trocando em miúdos, de trazer de volta espécies extintas com a ajuda da magia da biologia molecular. É como dizer a um mamute: “Lázaro, vem para fora!”.

Em princípio, seria possível fazer isso analisando o genoma dos mamutes — coisa da qual já dispomos, embora com uma série de erros e trechos fragmentados, o que, aliás, também vale para nossos primos extintos, os neandertais. Usando esse conhecimento, alterar-se-ia o DNA de um elefante asiático — parente mais próximo dos mamutes ainda vivo –, colocar-se-ia o embrião na barriga de uma fêmea da espécie atual e pronto.

A minha pergunta original era o seguinte: será que não estamos a anos-luz de distância da capacidade de manipular genomas suficiente para conseguir esse feito prometeico? Não me parece exatamente brincadeira de criança. São bilhões de letras químicas diferentes para controlar, e um monte de coisa pode dar errado, afinal.

Church me respondeu dizendo que as capacidades de manipulação precisa do DNA andaram avançando muito nos últimos tempos. E emendou:

“Em segundo lugar, não precisamos mudar cada um dos pares de bases [as “letras” do DNA] para atingir objetivos bastante significativos. Por exemplo, talvez com umas poucas dezenas de alterações, poderíamos fazer com que os elefantes se parecessem suficientemente com os mamutes para ajudar a salvar a tundra [ecossistema típico do Ártico, formado por gramíneas, musgos, líquens e árvores esparsas]. Os mamutes ajudavam a manter a tundra russa e canadense fria comendo grama morta, o que permitia que o Sol alcançasse a grama de primavera, cujas raízes profundas impedem a erosão; derrubando árvores que absorvem a luz do Sol; abrindo caminho pela neve, que tem um papel de isolante térmico, de maneira a permitir a penetração do ar frio no solo. Se a tundra derreter, poderá liberar mais gases do aquecimento global do que se todas as florestas do mundo fossem incendiadas. E caçar mamutes árticos me parece menos provável do que caçar elefantes africanos”.

Trocando em miúdos, vamos recriar os mamutes para salvar o mundo do aquecimento global.

Sinceramente não sei como reagir a esse tipo de ideia. A estratégia é ousada, os objetivos são nobres, mas o principal pressuposto por trás dela é a confiança de que uma intervenção humana é capaz de controlar toda a miríade de variáveis que engloba a interação dos seres vivos entre si e com seu ambiente. É meio estereótipo, mas o que vem à mente é uma palavrinha grega difícil de traduzir: “hýbris” — um misto de arrogância, exagero e, como diríamos hoje em dia, “sem-noçãozice”. E vocês, o que acham?

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