Darwin e Deus

Um blog sobre teoria da evolução, ciência, religião e a terra de ninguém entre elas

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Blog aborda os mais recentes estudos sobre a evolução do homem e dos demais seres vivos, explica o que a ciência tem a dizer sobre o fenômeno da fé e a história das religiões. É produzido pelo jornalista Reinaldo José Lopes.

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O clone

Por Reinaldo José Lopes

Quem passou o começo da década passada enfiado na editoria de ciência da redação de um grande jornal diário (tipo o escriba que vos fala) certamente cansou de ouvir falar de clonagem humana, aprendeu de cor e salteado a diferença entre clonagem reprodutiva e clonagem terapêutica, acompanhou com requintes de crueldade a revelação da fraude no trabalho do pesquisador coreano Hwang Woo-Suk, que afirmou mentirosamente ter obtido embriões clonados e derivado células-tronco deles — e por aí vai. Nesta semana, parece que finalmente um grupo de cientistas no Estado americano do Oregon conseguiu realizar o feito. Só que a coisa pareceu muito menos impactante do que em 2004, quando a primeira fraude coreana foi publicada. Por que será?

Conversei rapidamente por telefone sobre essa sensação de anticlímax com Stevens Kastrup Rehen, pesquisador do Lance (Laboratório Nacional de Células-Tronco Embrionárias), na Universidade Federal do Rio de Janeiro. A razão de fundo para a falta de empolgação com o feito tecnológico, para muita gente, são as chamadas células iPS, ou células-tronco pluripotentes induzidas. O “i” é crucial: significa que, com a ajuda da inserção de alguns poucos genes escolhidos a dedo, é possível fazer com que uma célula adulta, extraída da pele ou do sangue, retorne a um estado embrionário, indiferenciado, “genérico”.

Isso, em tese, permitiria que um órgão para transplante sob medida fosse criado em laboratório. E um transplante sem rejeição, já que o órgão teria o mesmo DNA do receptor, já que foi desenvolvido a partir de células do doente. Esse era o grande argumento em favor da clonagem terapêutica. Por isso mesmo, perguntei informalmente ao Stevens: e aí, essa clonagem de agora não serve para nada?

Eis o que ele respondeu.

“Serve para livrar o mundo do mal-estar causado pelo Hwang. Resgatou uma questão que parecia insolúvel e que ainda foi acompanhada por aquele trauma todo da fraude. O [Shoukhrat] Mitalipov [coordenador do novo estudo] refinou técnicas que ele mesmo criou [em estudos com macacos]. É interessante, do ponto de vista técnico é irrepreensível, mas chegou com dez anos de atraso, perdeu o bonde da história.

Se a gente for olhar os trabalhos com células embrionárias e o que se já faz com a iPS, a iPS é meio imbatível, tanto como modelo de doença quanto pelo fato de que já se considera possibilidade de testes clínicos [para tratar doenças] com elas. Você não precisa da doadora do óvulo [como na clonagem], sem contar que tem uma questão a mais: na clonagem você está introduzindo uma variável a mais, que é a mitocôndria com material genético diferente presente no óvulo da doadora.

O Mitalipov foi um cara perseverante ao mostrar que o que era fraude é factível, mas não vejo uma mudança de rumos por isso.”

Essa, claro, é a questão puramente científica e tecnológica de viabilidade, do que dá para fazer com a clonagem terapêutica ou não. Outra questão, um bocado diferente, é a (bio)ética, do que deve ou não ser feito com esse tipo de conhecimento.

Para variar, as coisas são complicadas. Por mais que seja repugnante para muitas consciências a destruição de embriões humanos gerados da maneira “tradicional”, a de óvulos fecundando espermatozoides, duas coisas têm de ser consideradas: mesmo no contexto natural da união entre um homem e uma mulher, só uma minoria de embriões acaba levando ao nascimento de um bebê; e há a questão do que fazer com embriões que vão ser descartados de qualquer maneira. Não acho que existam respostas fáceis aí.

Por outro lado, a linha que é cruzada no caso da clonagem terapêutica é que o embrião está sendo criado de forma deliberada para ser destruído. E essa é uma linha realmente perigosa de se cruzar.

Uma última complicação: as células iPS, para serem criadas, não dependem da destruição de embriões — hoje. Mas o conhecimento que foi usado para chegar até elas dependeu de vários anos de experimentos com células-tronco embrionárias, essas sim obtidas de embriões destruídos. Para quem é contra esse ato, isso deve “contaminar” ou “macular” também as iPS?

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