Darwin e Deus

Um blog sobre teoria da evolução, ciência, religião e a terra de ninguém entre elas

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Blog aborda os mais recentes estudos sobre a evolução do homem e dos demais seres vivos, explica o que a ciência tem a dizer sobre o fenômeno da fé e a história das religiões. É produzido pelo jornalista Reinaldo José Lopes.

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O espetáculo das aves da mata atlântica

Por Reinaldo José Lopes

Mudei de casa e de cidade (na verdade, voltei para a minha cidade natal) desde o mês de setembro do ano passado, e uma das inúmeras vantagens da mudança consistiu em viver do lado de um pequeno bosque. É só um naquinho ridículo da mistura exuberante de cerrado, mata atlântica e mata de araucárias que um dia cobriu São Carlos do Pinhal — olhando pelo Google Earth, não deve passar de uns 10 ou 20 hectares –, mas já é alguma coisa. Saguis, macacos-pregos (e bugios, segundo o jardineiro do condomínio, o grande Geni) às vezes aparecem por aqui. E aves para todo o lado, principalmente.

Tié-sangue, ou “Ramphocelus bresilius”: tem coisa mais linda? (Crédito: Dario Sanches/Creative Commons)

É difícil descrever como a experiência tem sido um deleite, a começar pelo fato de que, embora eu seja um menino de interior, tenha passado a infância inteira achando que o pardal era a única espécie de ave num raio de 100 km da minha casa (minha rua era um ótimo lugar para se viver, mas as donas de casa do bairro, fanáticas por limpeza, costumavam fazer lobby para cortar as poucas árvores das calçadas, argumentando que as folhas delas entupiam as calhas das casas). O resumo da ópera é que, pela primeira vez na vida, virei um observador de aves. E o “Guia de Observador de Aves” recentemente editado pela Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza caiu no meu colo como um presente dos céus — ou, ao menos, dos bichos que navegam por eles.

O guia, primorosamente ilustrado e escrito por Fernando Straube, Leonardo Deconto e Marcelo Vallejos, descreve um ambiente bem diferente do cume da serra de Rio Claro, onde me encontro. Trata-se da Reserva Natural Salto Morato, mantida pela fundação em Guaraqueçaba, litoral do Paraná. Mas os pontos comuns entre a fauna da mata atlântica ao longo do bioma já me permitiram identificar alguns bichos em ambos os locais, como o gaturamo e o tangará, de ampla distribuição e lindos.

O guia é um ótimo ponto de partida para quem quer começar a observar aves na natureza, dando detalhes de como usar binóculos, o que mirar na hora de identificar os bichos (detalhes anatômicos como coroa e manto) e, o mais legal, a estrutura ecológica dos grupos de aves, aqueles que são típicos da borda da mata, da copa das árvores etc.

Já falei, em post recente, da dinâmica evolutiva perversa que vem alterando a população de aves, e as plantas que dependem quase simbioticamente delas, na nossa sofrida mata atlântica. Não é preciso dizer — mas digo assim mesmo — que a preocupação ambiental é uma das áreas onde não religiosos e religiosos podem e devem unir esforços, que deveria transcender barreiras. E, como sabemos, só se preserva direito o que se conhece. O guia é um ótimo começo para melhorar esse conhecimento de forma prazerosa.

O livro pode ser adquirido por R$ 50 no site da editora da Universidade Federal do Paraná (www.editora.ufpr.br).

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