Darwin e Deus

Um blog sobre teoria da evolução, ciência, religião e a terra de ninguém entre elas

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Blog aborda os mais recentes estudos sobre a evolução do homem e dos demais seres vivos, explica o que a ciência tem a dizer sobre o fenômeno da fé e a história das religiões. É produzido pelo jornalista Reinaldo José Lopes.

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Intermediários não existem?

Por Reinaldo José Lopes

Receio que este seja um post sem imagens bonitinhas, teórico pra chuchu e um tanto chato mesmo. Mas achei que seria importante abordar pontualmente uma questão que causa um sem-número de mal-entendidos quando estamos falando de evolução — problemas de compreensão que vivem pipocando nos comentários aqui do blog. Estou falando da questão dos “elos perdidos”, ou formas de vida supostamente “intermediárias”.

O argumento tradicional de quem não aceita a teoria da evolução é quase sempre uma variação em torno do seguinte tema: seres que são metade uma coisa, metade outra, por definição seriam aberrações fracassadas, e não ancestrais em potencial de uma futura linhagem de animais (ou plantas, ou bactérias). Ou, numa frase muito utilizada: “De que serve meio olho/meio ouvido/meia perna/meia asa?”.

Pessoalmente, acho que, para começar, falta caridade (na acepção cristã da palavra) a esse tipo de argumento. Pergunte a um cego ou a um tetraplégico se meio olho e meia perna são melhores do que nenhum olho e nenhuma perna, e eu não tenho dúvidas de qual será a resposta. Mas, para além desse volteio retórico, as pessoas se esquecem, em primeiro lugar, da diversidade de adaptações – visuais, de locomoção, de comportamento, de qualquer coisa – que existem na natureza e do fato de que, mesmo que muitas delas não sejam as mais sensacionais e bem azeitadas, mesmo que sejam soluções toscas, elas têm alguma utilidade.

Aposto, por exemplo, que todo mundo aqui gostaria de enxergar ultravioleta como as abelhas e infravermelho como as corujas. Mas, para 99% dos casos, nossos olhos incapazes de detectar essas faixas do espectro luminoso quebram perfeitamente o galho. O mesmo vale se a gente “descer” rumo às raízes da Árvore da Vida: alguns vermes simples conseguem apenas detectar a diferença entre luz e sombra, mas essa “visão” tosca já ajuda muito quando uma ave aquática, por exemplo, faz sombra na superfície da água com suas asas, o que permite que o pobre verme nade para a parte mais funda da coluna d’água e tenha mais chances de escapar do predador — garantindo que sua capacidade de detecção de luz e sombra seja passada para as gerações seguintes.

Esse causo hipotético nos leva a outro ponto crucial. É só com o telescópio invertido do nosso olhar no presente — depois de “assistir” o filme de toda a história da vida a partir do ponto onde nos encontramos — que conseguimos enxergar um fóssil como “elo perdido”, “intermediário” etc. Em seu contexto original, é claro que essa criatura precisou ser um animal, planta ou o que valha totalmente funcional, bem adaptado a seu ambiente, perfeitamente capaz de se reproduzir — ou, do contrário, não teria vivido para deixar descendentes e ser visto, com o olhar enviesado de quem já conhece o fim da história, como “elo perdido”.

Fiquei pensando numa analogia simples para explicar por que as coisas funcionam assim e, como estou cercado de casas sendo construídas aqui no condomínio onde moro, acabei pensando numa escada de concreto que liga os andares de um sobrado em construção. A analogia não é tão boa, no fundo, porque realmente dá a impressão — errada — de direcionalidade, de caminho inevitável rumo ao topo, que eu acabei de dizer que não existe, ou no máximo só existe quando você já chegou ao “topo”. Mas ela tem a seguinte vantagem:

Imagine que, para chegar ao último degrau que conduz ao segundo andar do seu sobrado, você precisou de degraus sólidos, bem construídos, desde o primeiro deles lá no térreo. Cada degrau precisa funcionar como uma plataforma confiável por si só, ou o caminho até o alto da casa será interrompido. Cada espécie ancestral precisa ser esse degrau.

Um último ponto importante: sabemos que o registro fóssil, o conjunto de todos os seres vivos preservados em rocha para a posteridade, é incompleto. É preciso dar uma sorte dos diabos para virar fóssil. Só uma fração relativamente pequena das espécies que existiram nesta nossa boa Terra vai chegar até nossas mãos — até porque, além do viés de preservação, existe ainda o viés de “achamento”: nem todos esses fósseis vão ser achados porque a grana e o tempo dos paleontólogos para escavá-los são bens finitos (e bem mixurucas, na verdade, infelizmente).

Por isso mesmo, há uma dificuldade natural, e mesmo insuperável, de apontar com absoluta certeza que tal fóssil representa o ancestral direto de tal e tal criatura moderna. Antes que você solte um muxoxo de desânimo, porém, lembremos o que os fósseis podem fazer. Podem, por exemplo, demonstrar que tais e tais características encontradas numa espécie moderna têm antecedentes plausíveis — podem, em outras palavras, ser enxergados como um processo no tempo, e não como maravilhas prontas caídas do céu.

É nesse sentido que os “elos perdidos” são reais.

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