Darwin e Deus

Um blog sobre teoria da evolução, ciência, religião e a terra de ninguém entre elas

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Blog aborda os mais recentes estudos sobre a evolução do homem e dos demais seres vivos, explica o que a ciência tem a dizer sobre o fenômeno da fé e a história das religiões. É produzido pelo jornalista Reinaldo José Lopes.

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Deputado do Cam

Por Reinaldo José Lopes

Em meio ao regozijo geral com o naufrágio (ao menos temporário) do projeto sobre a “cura gay” no Congresso Nacional, fiquei intrigado com um detalhe. Embora todo mundo deplorasse o pensamento do deputado Marco Feliciano (PSC-SP) sobre a homossexualidade, pouca gente recordou alguns disparates que o congressista propagou a respeito de certa passagem bíblica e das pessoas de origem africana — a ideia, em resumo, de que negros seriam “malditos”.

Noé amaldiçoa seu filho Cam

Para quem não está lembrado, a origem do rolo foi o seguinte tuíte de Feliciano (sem edição, então não reparem na pontuação): “africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé. Isso é fato. O motivo da maldição é a polêmica. Não sejam irresponsáveis twitters”. O tema, portanto, é Gênesis 9, 20-27 (ou seja, um trechinho do capítulo 9 do livro bíblico do Gênesis), no qual se relata a maldição de Noé.

Meu propósito aqui é mostrar como a declaração do deputado revela um enorme desconhecimento das complexidades do texto bíblico. É irônico que um líder cristão que alcançou projeção nacional tenha capacidade tão limitada de interpretar suas próprias escrituras sagradas. Nos parágrafos a seguir, explico o porquê disso.

CAPÍTULO E VERSÍCULO

Antes de mais nada, porém,  vamos à passagem bíblica em si. O cenário é o período logo após o dilúvio, quando Noé e seus filhos Cam, Sem e Jafet estão repovoando a Terra. Confira abaixo.

“Noé, que era agricultor, plantou uma vinha. Tendo bebido vinho, embriagou-se, e apareceu nu no meio de sua tenda. Cam, o pai de Canaã, vendo a nudez de seu pai, saiu e foi contá-lo aos seus irmãos. Mas Sem e Jafet, tomando uma capa, puseram-na sobre os seus ombros e foram cobrir a nudez de seu pai, andando de costas; e não viram a nudez de seu pai, pois que tinham os seus rostos voltados. Quando Noé despertou de sua embriaguez, soube o que lhe tinha feito o seu filho mais novo. ‘Maldito seja Canaã’, disse ele; ‘que ele seja o último dos escravos de seus irmãos’. E acrescentou: ‘Bendito seja o Senhor Deus de Sem, e Canaã seja seu escravo! Que Deus dilate a Jafet; e este habite nas tendas de Sem, e Canaã seja seu escravo!’.”

A passagem é um daqueles exemplos clássicos da dificuldade de interpretar o livro do Gênesis. A narrativa é seca, econômica; não há pistas do que se passa na cabeça dos personagens, não sabemos suas motivações, só os fatos básicos da história. A maldição vem só do fato de Cam ter visto seu pai nu ou porque ele teria ido contar o fato aos irmãos em tom de chacota (mas repare que o texto não diz isso, ao menos não com todas as letras)? E por que o filho de Cam, Canaã, é o amaldiçoado pelo avô? OK, sabemos que a mentalidade fortemente tribal dos tempos bíblicos enxergava os filhos pagando os pecados dos pais às vezes, mas nesse caso a coisa parece um tanto gratuita.

Tanto a passagem é capaz de causar perplexidade que ela gerou uma série de interpretações ao longo da história do judaísmo e do cristianismo. Em outros textos hebraicos, como no livro bíblico do Levítico, expressões como “descobrir a nudez” de Fulano ou “ver a nudez” de Sicrano são usados como eufemismos para fazer sexo com essa pessoa ou com o cônjuge dessa pessoa. Por isso, textos como o Talmude da Babilônia (compilado por volta do ano 500, reunindo interpretações mais antigas) postulam que Cam teria estuprado seu pai embriagado; outros falam em incesto de Cam com sua mãe.

Sobre a maldição ter recaído sobre Canaã, e não sobre Cam, uma antiga e criativa interpretação judaica propõe que, na verdade, o crime do filho de Noé teria sido castrar seu pai, que se tornou incapaz de gerar um quarto filho; como retaliação, o construtor da célebre Arca amaldiçoou o quarto filho de Cam, o pobre Canaã. Por outro lado, os filhos “não malditos”, Sem e Jafet, livram-se da ira do pai simplesmente cobrindo seu corpo sem olhar para ele. O fato é que o texto bíblico em si não traz indicações claras do que tudo isso quer dizer. Quem se guia pelo princípio da “Sola Scriptura” — só vale o que está na Bíblia — precisa, para ser honesto, confessar sua incerteza.

NEGRO? ONDE?

Repare também que em nenhum momento o texto faz qualquer menção à aparência física de Cam, de Noé ou de seus irmãos. No capítulo seguinte do Gênesis, o 10, há uma lista de nações que seriam descendentes do trio. Egípcios, líbios e etíopes descenderiam de Cam — mas, atenção, não de Canaã, o filho “maldito”, mas dos irmãos mais velhos dele. E é claro que só os etíopes são o que chamaríamos, no “olhômetro”, de negros.

E Canaã? O nome, como bem sabe quem já leu o Antigo Testamento, é a designação original da terra que seria ocupada pelo povo de Israel. Os cananeus são os habitantes originais da região, incluindo os fenícios, célebres navegadores da Antiguidade. Esses seriam os descendentes de Canaã, destinados a ser escravos dos descendentes de Sem (os israelitas e árabes, por exemplo) e Jafet (os gregos, entre outros).

Só tem um porém: as evidências arqueológicas, obtidas de forma independente da Bíblia, mostram de forma inequívoca que os cananeus e fenícios eram semitas, “descendentes de Sem” no sentido que eram parte do mesmo grande grupo cultural ao qual pertencia o povo de Israel. Falavam hebraico, por exemplo. Fora, claro, o fato de que muito provavelmente não tinham a aparência de africanos moradores das regiões ao sul do Saara, mas eram simplesmente “morenos”, como diríamos por aqui — há pinturas egípcias que os retratam com essa cara, por exemplo.

Cananeus retratados em imagem egípcia: não tinham cara de nagô

O mais provável — embora ainda assim difícil de afirmar categoricamente, claro — é que a história seja uma explicação lendária para o fato de os israelitas terem obtido a posse da terra de Canaã e destruído ou escravizado os cananeus. A derrota seria um sinal de uma espécie de maldição, explicada pela história sobre Noé e seus filhos. Sim, Bíblia também é política — embora não como a bancada evangélica às vezes a entende.

Então, por que a teoria maluca sobre os africanos malditos? Em parte, o nome de Cam, em hebraico, lembra uma palavra que significa “escuro” — embora sejam só palavras parecidas sem relação entre si. A associação entre negritude e o pecado de Cam foi mencionada às vezes durante a Idade Média por poucos autores judeus e cristãos e só ganhou força com o crescimento do tráfico negreiro — e como forma de justificá-lo — a partir do fim do século 16. É totalmente espúria, resumindo a ópera.

A lição dessa história tortuosa? Se o gentil leitor me permite propor uma, é a de que não se pode ler a Bíblia como se tivesse sido escrita ontem em português. É fácil falar em seguir apenas os preceitos bíblicos, sem “acréscimos”, mas quem se recusa a enfrentar as complexidades do texto e a história de sua interpretação corre o risco de engolir interpretações errôneas e pré-fabricadas sem nem se dar conta de que está fazendo isso. Os cristãos brasileiros merecem coisa melhor.

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