Darwin e Deus

Um blog sobre teoria da evolução, ciência, religião e a terra de ninguém entre elas

 -

Blog aborda os mais recentes estudos sobre a evolução do homem e dos demais seres vivos, explica o que a ciência tem a dizer sobre o fenômeno da fé e a história das religiões. É produzido pelo jornalista Reinaldo José Lopes.

Perfil completo

Publicidade
Publicidade

“Sitz im Leben”

Por Reinaldo José Lopes

Não acho que só seja possível filosofar em alemão, como dizem por aí, mas a língua de Goethe tem lá suas utilidades. Toda vez que você encara um antigo texto sagrado, por exemplo, sugiro que você guarde a expressão que serve de título para este texto: “Sitz im Leben” — algo como “contexto em vida”. Desconfio que uns 80% das brigas que as pessoas têm em torno da Bíblia, do Corão, dos Vedas etc. tenham a ver com a incapacidade de levar em conta esse conceito.

Mas o que diabos isso quer dizer? A expressão original cunhada pelo teólogo protestante Hermann Gunkel (1862-1932) é “Sitz im Volksleben”, ou “contexto na vida do povo”, o que já explica bem melhor a coisa, acho. A questão é que as funções dos textos antigos no cotidiano da cultura que os produziu são, muitas vezes, um bocado diferentes das nossas.

Pense, em primeiro lugar, que mesmo na estimativa mais otimista sobre alfabetização no mundo antigo — há quem diga que o melhor cenário nesse sentido seja a Atenas democrática dos séculos V e IV a.C. –, no máximo, mas no máximo mesmo, uns 20% da população sabia ler e/ou escrever (as duas coisas nem sempre andavam juntas). No Império Romano esse número tendia a ser pior. Isso significa que as pessoas entravam em contato com os textos de modo quase sempre oral, mesmo quando se tratava de um texto escrito, que era ouvido, e não lido – daí as marcas de oralidade, como repetições, fórmulas mnemônicas (para ajudar o sujeito a se lembrar do que está sendo lido), paralelismos, e por aí vai.

A visão baseada no “Sitz im Leben”, no entanto, vai além desses detalhes formais ou de gênero literário, porém. Para pegar um dos exemplos que mais dividem religiosos de não religiosos quando o assunto é entender como o mundo surgiu, a belíssima narrativa da criação do mundo no capítulo 1 do Gênesis, o primeiro livro da Bíblia, tem marcas de texto litúrgico — talvez algo que fosse recitado, como um poema, pelos sacerdotes do Templo de Jerusalém (o consenso, de fato, é que se trata de um texto escrito em círculos sacerdotais). Palavras e frases são repetidas sete vezes (sete é o número da perfeição para várias culturas); há a insistência do ritmo da manhã e da noite (mesmo quando, curiosamente, Deus ainda não criou o Sol e a Lua…); as variações da frase “e Deus viu que isso era bom” — e inúmeros outros pontos.

Qual é a importância disso? Bem, quem lê esse tipo de texto como uma descrição factual do que aconteceu no início do Cosmos comete o mesmo erro de quem pegar uma música cantada na missa, ou um hino entoado no culto ou na sinagoga, e achar que aquilo equivale a um livro-texto de cosmologia ou biologia evolutiva. Esse tipo de coisa acontece ao longo de todo o cânone bíblico — e de outras escrituras sagradas.

Blogs da Folha