Darwin e Deus

Um blog sobre teoria da evolução, ciência, religião e a terra de ninguém entre elas

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Blog aborda os mais recentes estudos sobre a evolução do homem e dos demais seres vivos, explica o que a ciência tem a dizer sobre o fenômeno da fé e a história das religiões. É produzido pelo jornalista Reinaldo José Lopes.

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Jesus e César

Por Reinaldo José Lopes
Reza Aslan: não é a cara do Diogo Mainardi?

Li feito um pé-de-vento, em menos de dois dias, o novo livro do acadêmico iraniano-americano Reza Aslan sobre a figura histórica de Jesus, batizado provocativamente de “Zealot” (“Zelote”) por causa da maneira como Aslan enxerga o Nazareno da história: essencialmente alguém que pregava a resistência contra a opressão gêmea de Roma e da casta sacerdotal de Jerusalém. Resenhei o livro nesta Folha dias atrás (confira o texto aqui), mas alguns pontos importantes ficaram de fora por questão de espaço, então achei que valia a pena detalhá-los por aqui.

“Zelotes” — simplesmente “zelosos”, ou seja, fervorosos religiosamente — era o termo usado, mais tarde na história judaica, para um dos grupos de rebeldes que expulsou temporariamente os romanos da Terra Santa antes que as legiões voltassem com tudo e esmagassem Jerusalém e seu Templo no ano 70 d.C.

Esse grupo não existia formalmente 40 anos antes, quando Jesus pregava na Galileia e na Judeia, mas Aslan argumenta que a missão profética do homem de Nazaré era equivalente em objetivos, se não em táticas, à dos zelotes: a busca de uma nação israelita renovada, livre dos invasores e da aristocracia corrupta e exploradora de sacerdotes, restaurada pelo poder de Deus e liderada por um chefe divinamente escolhido: o próprio Jesus como Messias.

Aslan tenta mostrar, entre outras coisas, a relação de Jesus com a violência era mais complexa do que muita gente imagina (em ditos como “Não vim trazer a paz, mas a espada”) e que os romanos não costumavam crucificar qualquer zé-mané. A crucificação era reservada a gente de baixo status social que representasse uma ameaça à ordem social. Era suplício de rebelde ou guerrilheiro, basicamente, diz ele.

Primeiro ponto a tirar do caminho antes de avaliar o conteúdo do livro: foi sacanagem espinafrarem Aslan por ser muçulmano e “se meter a escrever sobre Jesus”. Não tem nenhuma influência religiosa islâmica na obra dele. Ele tenta raciocinar puramente como historiador secular, colocando “entre parênteses” sua crença.

Dito isso, o livro é legal e confiável? Sim e não. Primeiro, acho que todo mundo concorda que Jesus não morria de amores pelo Império Romano — nem ele nem boa parte da primeira geração de cristãos. Não conheço muitos exemplos de “literatura subversiva” na Antiguidade greco-romana, mas o Apocalipse, por exemplo, certamente se encaixa na definição (tipo chamando o maior centro de culto ao imperador na Ásia Menor de “morada de Satanás”).

UM JUDEU MARGINAL

Quase todo mundo também concorda que Jesus estava totalmente inserido na cultura judaica de seu tempo. Sua visão estava focada no destino de seu povo, ao menos naquele momento, e ele próprio diz isso com todas as letras nos Evangelhos da Bíblia “oficial” – “Fui enviado apenas às ovelhas perdidas do povo de Israel”, por exemplo. Ele também enfiou o dedo nas fuças da elite judaica mais de uma vez. Em suma, ninguém é condenado à morte só por ficar dizendo “olhai os lírios do campo”. A missão de Jesus tinha um aspecto de contestação política.

Mas, e esse é um grande mas, o problema é enxergar essa missão como algo que se reduz “só” à política. Minha impressão é que Aslan não vê com clareza suficiente o elemento de inversão cósmica brutal — do tipo “os últimos serão os primeiros” — nos ditos de Jesus. Se tudo “desse certo” e por um milagre Jesus virasse rei de um Estado israelita restaurado, seguro e poderoso, ainda assim eu acho que ele ficaria decepcionado caso isso não fosse acompanhado por uma intervenção definitiva e poderosa de Deus na história, de tipo apocalíptico mesmo.

Outras coisas que me parecem forçadas: dizer que a ética do “oferecer a outra face” de Jesus só se aplicava a outros judeus, não a pagãos, quando o pensamento profético judaico — pensamento esse no qual Jesus bebeu — tem uma relação muito mais inclusiva com “as nações”, e certamente não chancela maltratar outros seres humanos depois da conquista inicial violenta descrita nos livros de Josué e Juízes (conquista que aliás provavelmente nem é histórica, mas essa é outra discussão).

A CÉSAR, NADA?

A forçada de barra suprema, no entanto, parece-me ser a interpretação que Reza Aslan dá à célebre frase “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Ele basicamente se centra na análise semântica de um único verbo grego, “apodidomi”, que a gente costuma traduzir como “dar” na frase acima, mas cujo sentido original é “devolver”, “dar de volta” pra alguém o que pertence àquela pessoa.

OK, mas aí o que rola tem um cheiro desgramado de raciocínio circular. No contexto do Templo do Jerusalém, onde Jesus teria pronunciado a frase famosa, o que é que “pertence a Deus”, por excelência? Ora, responde Aslan, a própria Terra Santa de Israel, que os romanos ocupam injustamente! A frase, assim, vira um chamado puro e simples para deixar de lado o “dinheiro sujo” romano (lembre-se de que ela foi dita quando mostraram a Jesus a moeda romana com a qual se pagava o imposto) e expulsar as legiões da terra de Israel!

De fato, é possível que o subtexto político da frase de Cristo seja bem mais ambíguo e menos “docinho de coco” do que o Jesus que supostamente mandaria a gente calar a boca e pagar a conta de luz. Mas Aslan leva a coisa toda pro extremo oposto.

Um último resmungo da minha parte: como quase todo mundo que escreve sobre os primeiros anos do cristianismo, Aslan não resiste à tentação de ir longe demais na criatividade e criar cenários hipotéticos. Por exemplo: sabemos que o tema de como aceitar os pagãos na Igreja nascente dividiu os primeiros seguidores de Jesus, opondo, por exemplo, Tiago e Pedro, de um lado (o partido mais rigoroso, a favor de uma coisa próxima da adoção do judaísmo pelos pagãos), e Paulo, de outro.

Beleza. Só que aí Aslan pega a tradição de que tanto Paulo quanto Pedro foram evangelizar Roma no fim da vida (tradição que, no caso de Pedro, não consta da Bíblia) e imagina uma disputa entre os dois lá para ver quem conquistava mais fiéis para seu “partido”, com Paulo perdendo temporariamente. Pode até ser plausível, mas não tem evidência nenhuma a respeito disso.

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