A nova biografia de Tiradentes: entrevista com Lucas Figueiredo

Reinaldo José Lopes

Não é um tema tão constante aqui no blog, mas é sempre um prazer quando consigo falar da história do Brasil, em especial a do Brasil-Colônia. Foi isso o que fiz numa reportagem recente na Folha sobre o livro “O Tiradentes”, nova biografia do revolucionário mineiro que está para chegar às livrarias. Entrevistei o jornalista Lucas Figueiredo, autor da obra, e tenho prazer de compartilhar a íntegra da conversa com os leitores deste espaço abaixo. Confiram!

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1)Primeiro, um pouco sobre fontes: você menciona que as anotações de Tiradentes à coletânea da legislação americana em francês ainda não tinham sido estudadas, correto? Quais as coisas mais interessantes que puderam ser mineradas nisso e onde está esse documento agora?

A edição da coletânea de leis constitucionais dos Estados Unidos (Recueil des loix constitutives des colonies angloises, confédérées sous la dénominacion d’ États-Unis de l’Amérique Septentrionale) que pertenceu a Tiradentes faz parte do acervo do Museu da Inconfidência (Ouro Preto-MG). Essa edição contém, em suas margens, anotações a bico de pena. Não se sabe quem fez as anotações. O livro, que muito provavelmente foi comprado em Birmingham pelo conjurado José Álvares Maciel, que o presenteou a Tiradentes, circulou entre muitas pessoas. Mas há chance de que as anotações tenham sido feitas por Tiradentes, que estudava com fervor o conteúdo do livro. Só saberemos se as anotações foram feitas por Tiradentes ou por outro conjurado quando elas forem examinadas. O Museu da Inconfidência ainda não permitiu a nenhum pesquisador realizar essa tarefa. Conheço alguns historiadores que sonham com essa possibilidade. Eu, com meu olhar de jornalista, também estou na fila dos que querem fazê-lo.

2)Volta e meia, ao longo do livro, temos os paralelos entre os inconfidentes e a Revolução Americana, as tentativas de aliança por intermédio de Jefferson etc. Você vê outros pontos de contato relevantes com os EUA nascentes? Ocorreu-me que, por exemplo, as razões da insatisfação dos colonos ingleses com a Coroa deles também eram econômicas e muito ligadas ao modo como se cobravam os impostos. Isso aproxima de certo modo os dois lados?

Você tem toda razão. A insatisfação dos colonos dos Estados Unidos e do Brasil (falamos aqui de Minas e Rio) tem, entre muitos motivos, uma raiz comum: uma insatisfação de fundo econômico, mais especificamente relacionada à voracidade fiscal de Londres/Lisboa. Mas os revoltosos de ambas as colônias também desejavam se livrar das amarras comerciais impostas pelos respectivos reinos para explorar as potencialidades econômicas da terra onde viviam. Não foi à toa que a cúpula da Conjuração Mineira tentou copiar o modelo americano em diversos aspectos, como a opção pela república e a busca de financiadores entre grandes comerciantes da França.

3)Ainda sobre esse tema da insatisfação econômica, é comum essa visão de que a Inconfidência foi basicamente um movimento de gente que devia e não queria pagar à Coroa, ou de gente pessoalmente insatisfeita com a Coroa — como é o caso do próprio Tiradentes, estacionado no mesmo ponto da carreira por anos e anos. Seria mesquinho enxergar os conjurados apenas por esse ângulo?

Não há como negar que a insatisfação pessoal de uns, de fundo econômico ou sociopolítico, e os interesses financeiros e comerciais com o possível fim do monopólio imposto por Portugal foram combustíveis que moveram a conjuração. Mas havia por certo outros combustíveis, como o encantamento com as ideias iluministas, o exemplo norte-americano, calcado em bases político-filosóficas admiráveis, e sobretudo o “louro desejo de liberdade”, como salientou o frei Penaforte, confessor de Tiradentes.

4)A que você atribui a ousadia beirando o destempero com que Tiradentes saiu pregando a rebelião por todo lado? Era só porque a burocracia colonial era tão mirrada que valia a pena o risco, já que a chance de uma ação rápida contra ele seria baixa?

Dentre as muitas missões que cumpriu na conjuração, Tiradentes se debruçou especialmente sobre duas: o recrutamento e a propaganda. Por si só, eram duas missões de grande exposição, mas não há dúvida de que Joaquim poderia ter sido mais cuidadoso, se quisesse. Mas não quis, o que aborrecia alguns conjurados, como Tomás Antônio Gonzaga e Cláudio Manuel da Costa. Tiradentes adotou uma estratégia radical, sem deixar uma porta aberta para recuo. Essa era uma característica dele: a ousadia e o destemor temperados pela falta de juízo. Ele sabia que eram altas as chances de pagar alto por causa de suas atividades conspiratórias. Mas pagou para ver. Por outro lado, se a conjuração tivesse vingado, seria em boa parte graças a seu trabalho.

5)A figura do “Tiradentes-Cristo” é, como você menciona, muito forte no imaginário, e o que pude ler dos relatos sobre o julgamento mostra que ele vai paulatinamente, de certo modo, assumindo uma figura desse tipo nos depoimentos. Por que ele faz isso, na sua opinião? Simplesmente a decisão de jogar a toalha e tentar salvar alguns dos companheiros, estando já alquebrado?

Tiradentes ficou dois anos preso, em regime de solitária. As condições nas masmorras eram péssimas, o que levou alguns dos conjurados à loucura ou à morte. Tiradentes sobreviveu, mas certamente teve seu estado mental muito abalado.

Nos três primeiros depoimentos que prestou na devassa, ele resistiu em entregar qualquer informação referente à conjuração. No 4º depoimento, acaba confessando sua participação no movimento e revela a participação de vários conjurados, alguns de posição extremamente periféricas. Do 5º ao 11º depoimentos, movimento por um arrependimento enorme por ter falado demais no 4º depoimento, ele tenta desesperadamente poupar seus camaradas, chamando para si toda a culpa.

Não acho que tenha sido uma decisão pessoal, muito menos consciente esse processo de conversão de Tiradentes que você bem percebeu, e que de fato ocorreu. Sua rebeldia radical foi apagada, surgindo no lugar uma devoção radical – e subserviente – aos dogmas da Santíssima Trindade. Certamente, isso aconteceu em boa medida graças aos 2 anos de solitária nas masmorras e ao trabalho dos frades franciscanos que atenderam Tiradentes e os demais conjurados na prisão. Como mostro no livro, esses frades faziam parte de uma estrutura mantida pela Coroa Portuguesa para manter os colonos submissos. Como mostram os dois relatos existentes dos últimos momentos de Tiradentes, Joaquim estava um farrapo humano quando subiu ao patíbulo.

6)Entender a figura de Tiradentes e a Inconfidência ilumina quais aspectos da história política do Brasil, inclusive a dos últimos tempos, na sua opinião?

Depois de sua morte, Tiradentes ficou meio século esquecido. Foi resgatado em meados do século XIX pelo movimento republicano, que precisava de um herói para ilustrar seu projeto – é quando surge a figura fantasiosa de Tiradentes de barbas longas, à la Jesus Cristo. De lá para cá, a história de Joaquim foi seguidamente manipulada e apropriada por movimentos dos mais diversos matizes, mas sempre no papel de herói. Basta dizer que ele é patrono da PM de MG e serviu de referência para alguns grupos da esquerda armada nas décadas de 1960 e 1970, como o MRT (Movimento Revolucionário Tiradentes). Portanto, Tiradentes hoje são muitos. E cada um tem o seu – só para lembrar: recentemente, Lula, na cadeia, e Temer, na Presidência, recorreram a figura de Tiradentes para justificar suas trajetórias. É sempre assim: toda vez que nos vemos em uma sinuca de bico, sejamos de direita, de centro ou de esquerda, recorremos a Tiradentes para tentar explicar o Brasil e os brasileiros. De certa forma, sua figura complexa é o reflexo de uma nação difícil de ser explicada.