Darwin e Deus

Um blog sobre teoria da evolução, ciência, religião e a terra de ninguém entre elas

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Blog aborda os mais recentes estudos sobre a evolução do homem e dos demais seres vivos, explica o que a ciência tem a dizer sobre o fenômeno da fé e a história das religiões. É produzido pelo jornalista Reinaldo José Lopes.

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Por um punhado de beagles

Por Reinaldo José Lopes

A esta altura do campeonato, você só não ouviu falar do célebre resgate dos beagles do Instituto Royal, em São Roque (SP), se andou passando uma temporada em Marte. É o tipo de assunto facilmente polarizador, que deixa as pessoas à mercê de emoções fortes e simplificações grosseiras. E, como está na interface complicadíssima entre bioética, ética de modo mais geral, comportamento animal e até crenças quase religiosas na posição especial (ou não especial, dependendo de quem fala) do homem na natureza, acho que se encaixa bem no escopo do blog, então aqui vou eu chafurdar nesse atoleiro. Peço a paciência do gentil leitor.

Primeiro, tirando da frente o óbvio: maus-tratos a animais, se estavam mesmo ocorrendo, precisam ser punidos com todo o rigor da lei. Existem protocolos éticos para experimentos com animais aceitos pela comunidade de pesquisa biomédica no mundo todo, os quais envolvem, entre outras coisas, a garantia do uso de anestésicos em todas as intervenções invasivas e uma eutanásia digna para bichos que estejam sofrendo ou precisem ser sacrificados para o andamento dos estudos. Ao menos no papel, cobaias só não são anestesiadas se o protocolo de pesquisa o exigir — em estudos sobre dor, por exemplo, infelizmente. Se existem pesquisadores que ficaram insensibilizados pelo longo trabalho com animais de laboratório e não se importam com o bem-estar dos bichos ou até têm algo de sadismo, que sejam denunciados e punidos severamente, porque isso não é atitude… bem, “de gente”, como se diz aqui em São Carlos.

Mas é claro que o mais complicado é lidar com a questão mais geral: é lícito, afinal de contas, injetar patógenos humanos em camundongos, testar produtos potencialmente cancerígenos em cães? E, no limite, criar animais para abatê-los e comer sua carne?

O QUE FUNCIONA

Veja bem, estou falando do que é lícito, não do que funciona. Por mais que se fale em culturas de células e simulações computacionais como substitutos para o modelo atual de pesquisa biomédica, o fato é que estamos longe, muuuuito longe de fazer com que essas alternativas tornem dispensáveis os experimentos com animais, pelo simples fato de que é preciso, com frequência, estudar como um organismo semelhante ao nosso reage de forma global a determinado fármaco ou intervenção. É claro que as alternativas têm de ser estudadas e, na minha opinião, receber bom financiamento, até porque elas poderiam aumentar a própria confiabilidade da pesquisa biomédica. E, claro, parece desejável, no mínimo, não testar mais cosméticos em bichos. Mas, pelos próximos muitos anos, tudo indica que novos remédios precisarão passar pelos testes pré-clínicos em animais.

(Um rápido e tristemente necessário parêntese: sou obrigado a dizer que quem aqui propõe que esses testes deveriam ser feitos em “criminosos irrecuperáveis” sofre de um tipo severo de idiotia moral. “Irrecuperáveis” pra quem, cara-pálida? Quem se acha qualificado para decidir quem “presta” e quem “não presta” entre seus semelhantes me parece um bom candidato a passar um tempinho trancafiado. Mas, graças a Deus, não sou eu quem decide. Ademais, por pior que um criminoso seja, ele ainda tem capacidades semelhantes às de qualquer outra pessoa de sentir dor, ter consciência de sua mortalidade, ter desejos e planos. Pode-se até discutir se alguém é perigoso demais para continuar vivo, mas usar uma pessoa, qualquer pessoa, como bucha de canhão de laboratório não me parece um avanço moral.)

O QUE É CERTO

Em texto de análise nesta Folha, discuti algumas das premissas do chamado movimento de libertação animal, para o qual, em praticamente nenhuma circunstância, seria lícito ferir animais ou tirar suas vidas em benefício humano.

Os argumentos filosóficos por trás dessa posição são fortes e merecem ser levados a sério. Não é só “coisa de ambientalista doido”. Em especial quando estamos falando de vertebrados, e principalmente de mamíferos e aves, está cada vez mais claro que as bases mais profundas das emoções humanas também estão presentes nesses bichos. No mínimo, os últimos 30 anos de pesquisas deixaram claro que as diferenças emocionais e cognitivas entre pessoas e mamíferos de vida social complexa e vida longa, como grandes macacos, cetáceos e elefantes, é muito menor do que muita gente desejaria que elas fossem. Já usei essa metáfora antes, ela é meio dura, mas tanto faz: criar um bebê chimpanzé em isolamento, apenas como cobaia, é a mesma coisa que criar uma criança numa solitária e torturá-la — embora, no caso do nosso pobre chimpa, as capacidades mentais continuem no nível das de uma criança pelo resto da vida.

A questão mais complicada, no entanto, é se isso vale para todos os demais animais. Nesse ponto, não me parece que a pesquisa biomédica seja, no fundo, mais desrespeitosa ou desumana do que o uso de animais como alimento. (A coerência completa, nesse caso, exigiria que todos os que se opõem ao uso de beagles para experimentos também sejam veganos, ou seja, só comerem produtos de origem vegetal, ou no mínimo vegetarianos, o que permitiria a inclusão de ovos e leite na dieta.)

É aí que a porca torce o rabo, com o perdão do trocadilho. É difícil dizer se o imperativo ético de não devorar nenhum animal é realmente impossível de rejeitar ou apenas reflexo de um desejo humano, muito compreensível, de “sanear” o mundo. Digo isso pelo seguinte: a predação, para o bem ou para o mal, faz parte da teia dos ecossistemas e da maneira como a vida funciona. Sem predadores, herbívoros seriam uma praga incontrolável — e, se não fossem mais criados por humanos, certamente seria esse o destino deles, até que fossem devidamente predados.

Sim, eu sei perfeitamente que nem tudo o que é “natural” é “certo” — muito pelo contrário, aliás. Mas um “caminho do meio”, ou seja, a criação de animais não industrializada, com respeito ao comportamento natural de cada espécie e um sacrifício respeitoso no final, não seria igualmente digno? O único caminho ético é mesmo a transformação de todo ser humano em vegetariano e, de preferência, vegano? É de se pensar.

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