Darwin e Deus

Um blog sobre teoria da evolução, ciência, religião e a terra de ninguém entre elas

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Blog aborda os mais recentes estudos sobre a evolução do homem e dos demais seres vivos, explica o que a ciência tem a dizer sobre o fenômeno da fé e a história das religiões. É produzido pelo jornalista Reinaldo José Lopes.

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Teologia vegana?

Por Reinaldo José Lopes

Já que estamos mesmo falando dos dilemas que envolvem o uso de animais por seres humanos, seja para testes de medicamentos, seja como comida (confira o post anterior a respeito aqui), achei que seria bacana abordar rapidamente uma discussão antiga: afinal, a tradição religiosa judaico-cristã (só não coloco um “ocidental” aqui pra não ser acusado de plágio pelo Casseta & Planeta) teria uma parcela grande de culpa na maneira como tratamos outros animais no Ocidente? Afinal, faltou um pouco da parte “Deus” do blog no primeiro post.

Como tudo na vida, desconfio que a resposta seja “é complicado”. A reflexão teológica de judeus e cristãos sobre a relação entre humanos e animais inevitavelmente se centra nos primeiros capítulos do Gênesis, os quais, afinal, falam da criação dos seres vivos e do homem logo em seguida. (Aliás, “as” criações; há dois relatos distintos e contraditórios das origens do mundo e do homem no primeiro livro da Bíblia, mas isso é assunto para outro post.)

A questão, no fundo, é onde você coloca a ênfase. Os relatos da criação falam, de um lado, do mandamento divino de que o homem deve “encher a Terra” e “dominá-la”. Beleza. Isso estaria na origem das ideologias ocidentais de que se deve usar à vontade os recursos naturais etc. Mas o detalhe que muita gente deixa de lado é o fato de que Adão e Eva (“nossos primeiros pais”, na fraseologia católica à qual estou acostumado) eram totalmente vegetarianos. Aliás, veganos — ninguém falou que eles poderiam comer ovos ou tomar leite no Éden:

“Eis que eu vos dou toda a erva que dá semente sobre a terra, e todas as árvores frutíferas que contêm em si mesmas a sua semente, para que vos sirvam de alimento. E a todos os animais da terra, a todas as aves dos céus, a tudo o que se arrasta sobre a terra, e em que haja sopro de vida, eu dou toda erva verde por alimento” — os animais também eram veganos.

Mesmo após a chamada Queda, o ato de desobediência à vontade divina que teria afastado o casal primevo do Paraíso para sempre, Deus só sanciona oficialmente o consumo de carne DEPOIS DO DILÚVIO. Isso mesmo, gerações e gerações depois:

“Vós sereis objeto de temor e de espanto para todo animal da terra, toda ave do céu, tudo o que se arrasta sobre o solo e todos os peixes do mar: eles vos são entregues em mão. Tudo o que se move e vive vos servirá de alimento; eu vos dou tudo isto, como vos dei a erva verde. Somente não comereis carne com a sua alma, com seu sangue” — em outras traduções, em vez de “alma”, temos “vida”. A essência vital dos animais continua pertencendo a Deus, não aos humanos que os consomem.

Parêntese: é claro que nada disso aconteceu historicamente, mas as narrativas são interessantes como reflexos do ponto de vista dos autores bíblicos sobre como enxergar o estado original do homem, o estado desejado por Deus — nesse caso, a ideia de uma relação harmônica entre os homens e os animais.

Não é à toa que as tradições ascéticas do cristianismo sempre viram com muita desconfiança o consumo de carne. O raciocínio é que, se a intenção do fiel é recuperar esse estado “edênico” de proximidade com o Criador, vale a pena deixar de lado as práticas “decadentes” (no sentido original da palavra, ou seja, derivadas da Queda).

O veredicto, portanto, é ambíguo. Mas o que esses detalhes indicam, creio, é que a tradição do judaísmo e do cristianismo não é de modo algum um “caso perdido” quando se pensa em ampliar os direitos dos animais. É o caso de enxergar a multiplicidade e as tensões dentro dessa tradição.

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